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Camisas históricas e o valor do colecionismo

Para além do valor de mercado, colecionadores revelam como memória, autenticidade e conservação transformam uma camisa em patrimônio. 

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Por Redação Feito.ItaúPublicado em Atualizado em
Imagem e homem em um closet cheio de camisas esportivas
Imagem gerada por IA

Um conjunto de seis camisas usadas por Messi em 2022 – incluindo na histórica partida contra a França – foi arrematado por US$ 7,8 milhões em leilão na Sotheby's em dezembro de 2023, o equivalente a cerca de R$ 38 milhões na cotação da época. 

Para quem coleciona, uma camisa nunca é só tecido. Ela carrega parte da memória, da identidade e de um pedaço de história guardado no armário. 

E esse valor simbólico, quando combinado com autenticidade e conservação, tem peso real no mercado – às vezes, milionário. 

Memória vale mais do que mercado – mas os dois coexistem 

Lucas Castagnaro, 32 anos, é comerciante de bancas e um colecionador com acervo que mistura Fluminense, seleções e times europeus. Para ele, o que move sua coleção é o que cada peça representa. 

“Não compro pensando no valor financeiro que vai valer no futuro, isso nem passa na minha cabeça”, comenta o torcedor. 

Entre seus xodós está uma camisa oficial de jogo da Seleção Brasileira do Neymar, presente de um amigo, e uma camisa do Buffon da Itália que seus avós trouxeram em 2006 – peças que, para ele, valem pelo que significam, não o preço de mercado. 

Esse tipo de relação afetiva com a peça costuma marcar o início de muitas coleções. No caso de Matheus Souza, CEO e criador do canal Ritmo das Camisas, esse ponto de partida também veio da infância: 

“Minha primeira foi a camisa da Alemanha de 2006, que é de um template muito icônico da Adidas. ‘Template’ é a palavra que a gente usa pra falar do ‘modelo’, uma construção de camisa que a fornecedora adapta e replica para todos os times na temporada”. 

Ele explica como essa peça ajudou a moldar seu olhar técnico. “Principalmente por ser uma camisa bastante complexa na sua construção e nos seus detalhes. Ela tem muitas curvas, mescla muitas cores e texturas. É uma peça que você realmente precisa parar e olhar atentamente para não deixar passar nenhum detalhe.” 

O que faz uma camisa se tornar histórica 

Uma camisa histórica é valiosa por múltiplas camadas. Para Davi Ferreira, 31 anos, que coleciona há cerca de 18 anos e trabalha com análise de desempenho esportivo, “tem a ver com a experiência que você vive com ela, se foi usada por alguém, ou se tem uma simbologia forte”. 

Em seu acervo, peças autografadas por Pelé, Ronaldinho e Coutinho convivem com camisas que ele levava aos jogos do Vasco e que, por alguma razão, “davam mais sorte do que outras”. 

Essa leitura se amplia quando entra o olhar de design e inovação. Para Matheus, o ideal é quando esses elementos se encontram. “Acho que o melhor dos mundos para uma camisa se tornar lendária é unir uma camisa linda e inovadora com ela ser usada por craques e, de preferência, em títulos.” 

Ele cita como exemplo a camisa da Nigéria de 1996, que marcou época pelo visual.  

Eternizada durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, a camisa consagrou a conquista da medalha de ouro no futebol masculino, feito que tornou a Nigéria a primeira seleção africana a vencer o torneio olímpico. “Cheia de grafismos, padrões e texturas. Então já seria uma camisa importantíssima mesmo sem o título.” 

Para camisas de seleção, esse valor místico e simbólico, quando combinado com documentação – fotos, laudos de autenticidade, histórico de custódia – se transforma também em valor financeiro real. 

Colecionar com estratégia é possível 

Manter um acervo crescente sem desorganizar o orçamento exige planejamento. Lucas encontrou seu equilíbrio: buscar oportunidades e investir em camisas de temporadas anteriores, que costumam ter preços bem menores do que os lançamentos. 

“Hoje em dia está bem caro comprar camisas”, ele admite. E essa honestidade já é metade do caminho para colecionar de forma sustentável. 

Matheus reforça que esse controle virou parte essencial do hobby. “Colecionar camisas de futebol originais é super caro e hoje em dia o mercado deixa a gente muito ansioso porque há um lançamento por dia, ou mais. É uma loucura.” 

Por isso, ele recomenda disciplina. “Uma das melhores dicas que eu posso dar é estabelecer um teto de gastos e tentar ao máximo não estourar. Senão, você acaba cheio de parcelas intermináveis, e isso pode fazer muito mal.” 

Outro ponto que Lucas levanta é o cuidado com a conservação. Suas peças ficam penduradas no cabide para não danificar, embora algumas exceções saiam do armário para uso no dia a dia. 

Conservação é, aliás, um dos três critérios que Davi aponta como definidores de valor, ao lado de ser uma peça oficial e ter contexto histórico. 

As peças que o futuro vai querer 

As camisas usadas em torneios importantes carregam o maior potencial de valorização histórica. Davi destaca peças de 1958 e 1970 como as mais raras e valiosas do acervo brasileiro. 

Para o futuro próximo, ele aponta as camisas do Neymar e do Vinícius Júnior usadas em  2022 como candidatas a peças de coleção, cada uma com sua simbologia específica. 

Esse olhar também passa pelas transformações mais recentes do mercado. Para Matheus, algumas peças já nascem com narrativa própria, como é o caso da camisa away da Seleção Brasileira. 

“Essa camisa azul da Seleção causou muita polêmica. Justamente por isso, ela já nasce histórica. Vai ser pra sempre a camisa do ‘ame ou odeie’. Além disso, é a primeira camisa Jordan de seleção do mundo.” 

E, para quem pensa no longo prazo, vale lembrar que a camisa 10 da Argentina de 2022 já é, hoje, um marco no mercado. 

Compre com consciência e vantagem 

Se você está pensando em montar ou expandir seu acervo, o conselho de Davi é claro: “sempre verificar a autenticidade e buscar documentos que legitimem a peça para não cair no erro do barato que sai caro”. 

Comprar com consciência e vantagem também passa por atitudes práticas no dia a dia, como lembra Matheus. “As lojas oficiais são um dos meios interessantes, e os benefícios de fidelidade ajudam bastante. Também existem outros caminhos, como marketplaces e eventos de colecionadores. Tem mais risco, mas essa ‘caça’ também faz parte do hobby.” 

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