Durante os 4 anos em que morou no Japão, a publicitária Lídia Saito, de 33 anos, encontrou nos doces uma forma de matar a saudade do Brasil. O gosto pela cozinha vinha desde jovem, quando costumava preparar bolos e outras receitas para familiares e amigos. Longe de casa, passou a buscar receitas na internet e testar biscoitos por conta própria.
De volta ao país, a habilidade se transformou em uma oportunidade de negócio. Em 2025, Lídia preparou cookies para uma confraternização de Natal. Os elogios de quem provou fizeram surgir uma possibilidade até então distante: por que não transformar aquilo em uma fonte de renda?
Assim nasceu a Cookies by Lalá, nome que homenageia a filha, Laís Aiko, de dois anos. A escolha também traduz uma das razões que levaram Lídia a buscar uma fonte de renda: contribuir para as despesas da casa, conciliando trabalho e maternidade. “Um dos motivos principais foi ela. Ter um filho é caro, então eu sempre pensei muito nela e sempre tive muito cuidado para nada faltar”, conta.
Com o apoio de familiares e amigos, o negócio conquistou as primeiras encomendas. O Instagram é o principal canal de vendas, mas a comunicóloga também participa de eventos como expositora e fornece doces para aniversários, casamentos e formaturas. Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças e até torneios de futebol entram no calendário comercial da empreendedora.
O que surgiu como hobby hoje complementa a renda da família. Lídia também busca cursos, aprimora técnicas e estrutura o negócio para avançar na profissionalização.
Do prazer ao negócio
Transformar uma atividade prazerosa em fonte de renda pode parecer um passo natural quando começam a surgir encomendas, elogios ou oportunidades de venda. Mas ganhar dinheiro com aquilo de que se gosta muda a relação com o próprio trabalho. Entram na conta custos, preço, tempo dedicado à produção, capacidade de gerar receita e as responsabilidades assumidas diante dos clientes.
Os números do empreendedorismo brasileiro mostram que a abertura de pequenos negócios segue em ritmo elevado. Segundo dados do DataSebrae, baseados no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) da Receita Federal, foram abertos 2,9 milhões de pequenos negócios no primeiro semestre deste ano, entre microempreendedores individuais (MEIs) e micro e pequenas empresas. O volume é quase 12% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Os MEIs responderam por cerca de 2,25 milhões das novas empresas, mais de 75% do total. As microempresas somaram 534 mil aberturas. O setor de serviços concentrou 1,93 milhão de novos negócios, 64,4% do total.
A abertura de empresas, porém, não significa que todo hobby precise virar negócio. Antes de tomar a decisão, é preciso entender se a atividade pode gerar renda de forma sustentável e se há disposição para lidar com clientes, prazos, custos e responsabilidades sem perder a satisfação que deu origem a ela.
Desafios da profissionalização
Para Lécio Simões, planejador financeiro e consultor de valores mobiliários, a primeira pergunta é se existe vontade de profissionalizar a atividade ou apenas de obter algum dinheiro com ela. “Ao entrar dinheiro na equação, também entram cobrança, responsabilidade e obrigações”, afirma.
Dependendo da atividade, podem surgir gastos com regularização, impostos, contador, equipamentos, materiais, divulgação, espaço físico, taxas e deslocamentos. Por isso, o preço não pode considerar apenas o custo do material.
Lécio usa a própria trajetória como referência. Ao começar a construir uma nova fonte de renda ligada ao planejamento financeiro, calculou o valor da própria hora de trabalho como assalariado para entender quanto precisaria receber para que a mudança fizesse sentido.
O raciocínio também vale para quem transforma habilidades em produtos ou serviços. Quem faz bolos, fotografa, costura ou presta consultoria precisa considerar o tempo dedicado à atividade e os custos envolvidos. “Se você gastou R$ 50 para produzir alguma coisa, isso não significa que R$ 60 seja um bom preço. Seu tempo também tem valor”, explica Simões.
A equação ajuda a diferenciar faturamento de lucro: o primeiro corresponde ao total recebido pelas vendas; o segundo é o que permanece depois dos custos e despesas.
Separar as contas para enxergar o resultado
Misturar o dinheiro do hobby com o orçamento pessoal dificulta saber se a atividade realmente dá lucro. Uma conta separada permite registrar receitas e despesas e acompanhar quanto sobra.
A medida também evita que todo dinheiro recebido seja tratado como renda disponível para consumo. Se entram R$ 10 mil e saem R$ 8 mil, por exemplo, a movimentação não revela, sozinha, quanto a atividade efetivamente gerou.
Lécio aconselha ainda criar uma reserva financeira específica para o negócio, capaz de absorver períodos de receita menor e despesas inesperadas. “Não é recomendável começar simplesmente com a ‘cara e a coragem’. É preciso ter capital para atravessar os primeiros meses, porque a receita pode demorar para aparecer e os custos começam desde o primeiro dia”, alerta.
A formalização precisa entrar no planejamento. Não existe um valor único de renda que determine o momento em que uma atividade deve se tornar empresa. É preciso considerar a recorrência do trabalho, a geração de receita e lucro e a natureza da atividade.
Dependendo do que é oferecido, pode haver possibilidade de enquadramento como MEI. Na ausência dessa possibilidade, pode ser necessária uma estrutura empresarial diferente, como uma microempresa. A orientação contábil ajuda a identificar o formato adequado e as obrigações tributárias.
Menos hobby, mais trabalho
O dinheiro não é a única mudança. Clientes, prazos e encomendas alteram a relação com a atividade. No caso de Lídia, a produção passou a exigir organização comercial. Divulgar, precificar, atender clientes, cumprir prazos e acompanhar despesas são tarefas que não faziam parte da rotina dos doces preparados apenas por prazer. “Por isso que tenho buscado me profissionalizar para acompanhar o crescimento da marca”, detalha.
A relação com a atividade também muda. Uma encomenda assumida cria responsabilidade com quem pagou pelo produto ou serviço. A liberdade para experimentar e errar sem consequências dá lugar às expectativas de terceiros. “Existe uma diferença enorme entre ter um hobby e construir uma empresa”, resume Lécio.
Ou seja, transformar um hobby em fonte de renda pode abrir uma nova frente financeira, mas exige reconhecer que, a partir do momento em que entram vendas, clientes e compromissos, o prazer precisa dividir espaço com planejamento, preço, organização e responsabilidade.
Como organizar o hobby para começar a gerar renda
1. Calcule quanto a atividade custa
Inclua materiais, equipamentos, divulgação, taxas, deslocamentos, espaço, impostos e demais despesas. O tempo dedicado ao trabalho também precisa entrar na conta.
2. Separe as finanças
Mantenha as receitas e despesas do negócio organizadas e separadas das movimentações pessoais. Assim, fica mais fácil saber quanto realmente sobra.
3. Tenha uma reserva financeira
Guarde recursos para enfrentar períodos de receita menor e despesas inesperadas, evitando depender do negócio antes que ele tenha alguma estabilidade.
4. Entenda como formalizar
Verifique se a atividade pode ser enquadrada como MEI ou se exige outra estrutura empresarial. A orientação contábil ajuda a identificar o formato adequado e as obrigações tributárias.
5. Dê um destino para a renda extra
Antes de incorporar o dinheiro ao orçamento, defina prioridades, como formar uma reserva, financiar projetos ou alcançar metas financeiras.
6. Considere a nova rotina
Clientes, prazos, cobranças e responsabilidades passam a fazer parte da atividade. Crescer gradualmente pode ajudar a preservar o prazer pelo hobby enquanto o negócio ganha estrutura.
