Nas redes sociais, a frase “só se vive uma vez” costuma justificar uma compra, uma viagem ou uma experiência sem pensar muito no preço. Afinal, depois de uma rotina corrida, quem nunca sentiu que merecia um mimo? O problema é quando o dinheiro acaba antes do mês e os planos de longo prazo ficam cada vez mais distantes.
O enfermeiro Cristiano Aguiar, de 38 anos, conhece bem esse dilema. Natural de Alagoas, ele mora em São Paulo há seis anos, divide um apartamento com dois amigos em Pinheiros e trabalha em dois empregos. Mesmo com a rotina intensa, ainda não conseguiu formar uma reserva financeira. As despesas mensais consomem a renda, e o cartão de crédito acaba cobrindo o que falta.
Há pouco mais de um ano, a situação era mais grave. “Eu estava com o nome negativado e recorria frequentemente ao crédito rotativo. Desde então, poupando daqui e dali, consegui melhorar a minha relação com as dívidas e passei a manter a fatura em dia, embora continue sem dinheiro suficiente para fazer uma reserva de emergência”, conta.
Ele pensa em comprar um apartamento na capital paulista. A entrada necessária para o financiamento, porém, continua distante diante das despesas cotidianas e da dificuldade de guardar dinheiro. “A gente até pensa no futuro, mas é difícil abrir mão do presente, das experiências que desejamos ter ao longo das nossas vidas”, destaca.
“É como eu vi outro dia na internet: justo na minha vez de ser adulto, qualquer rolê com os amigos não sai por menos de R$ 200. Realmente, é difícil planejar a compra de um imóvel ou de um veículo assim. Aí, como parece impossível, penso logo em jogar tudo para o alto e aproveitar o hoje mesmo” - Cristiano Aguiar, enfermeiro.
Cristiano não está sozinho. Para muita gente, o salário cobre as despesas do mês, mas não deixa espaço para guardar dinheiro e realizar planos. Como mudar essa situação sem abrir mão de tudo o que dá prazer no presente? Isso é o que iremos discutir ao longo desta reportagem. Confira!
Por que é tão difícil equilibrar o agora e o amanhã?
De acordo com a pesquisa “Consciência e prosperidade: a nova relação do brasileiro com o dinheiro”, realizada pelo Itaú em parceria com o Grupo Consumoteca, 75% dos brasileiros se consideram organizados financeiramente, mas 40% afirmam gastar tudo o que ganham. Além disso, 56% costumam se arrepender de algumas compras, enquanto 40% se consideram consumistas.
Para Cristina Horst, economista, consultora independente de valores mobiliários e planejadora financeira, é importante considerar a satisfação de hoje sem perder de vista os anos seguintes. “Precisamos buscar a maior qualidade de vida hoje sem que essa qualidade atrapalhe o nosso futuro e a vida que queremos levar”, afirma.
Sem dinheiro guardado, uma despesa inesperada, um problema de saúde ou uma queda na renda pode comprometer o orçamento e levar à busca por empréstimos ou ajuda de terceiros. A falta de reserva também limita as escolhas diante de imprevistos.
Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, divulgada em abril deste ano, 31% dos brasileiros não têm dinheiro guardado para emergências. Entre os que possuem recursos, 43% afirmam que a reserva é suficiente para, no máximo, seis meses. O levantamento também indica que 20% da população conta com recursos para enfrentar apenas um mês.
Cartão de crédito não é dinheiro extra
O cartão de crédito e o parcelamento permitem distribuir o pagamento de uma compra ao longo do tempo. No entanto, a facilidade de dividir o valor não pode ser confundida com o dinheiro disponível no orçamento.
Mesmo sem juros, uma compra parcelada compromete parte da renda dos meses seguintes. As prestações reduzem o dinheiro disponível para outras despesas e objetivos. “Se eu não consigo guardar aquela parcela, não devo assumir aquela parcela, porque, se acontecer algum problema, posso não conseguir pagá-la”, explica Cristina.
O cuidado deve ser ainda maior quando a fatura não é paga integralmente. O saldo em aberto pode entrar no crédito rotativo, modalidade que cobra juros e pode agravar o endividamento. O uso frequente desse recurso marcou justamente a fase mais difícil da vida financeira de Cristiano.
Terminar o mês sem dinheiro para poupar, mesmo com as contas em dia, também merece atenção. Parcelamentos acumulados, gastos recorrentes no cartão e despesas anuais esquecidas no planejamento podem comprometer o orçamento. Manutenção do carro e material escolar, por exemplo, são gastos previsíveis que precisam entrar nas contas, ainda que não apareçam todos os meses.
Como aproveitar a vida sem abandonar os planos
Não existe um percentual de renda ideal para gastar com lazer ou destinar à reserva financeira. A divisão depende dos rendimentos, das despesas essenciais, das responsabilidades familiares e dos objetivos de cada pessoa.
Cristina recomenda começar pela renda líquida, descontar as contas fixas e definir quanto será destinado aos objetivos financeiros. O restante deve cobrir as despesas variáveis, como alimentação, transporte e lazer. Dividir o valor disponível por semana facilita o acompanhamento dos gastos e permite perceber quando o orçamento está perto do limite.
A reserva financeira também precisa entrar no planejamento desde o início, mesmo que os primeiros depósitos sejam pequenos. Cortar todo o lazer para poupar pode gerar frustração e tornar a mudança difícil de manter. O ideal é encontrar uma divisão compatível com a renda e as despesas, sem deixar de lado as necessidades básicas nem os objetivos de longo prazo.
Transformar desejos em metas também ajuda a organizar as escolhas. “Quem pretende comprar um imóvel pode estimar o valor necessário para a entrada, estabelecer um prazo e calcular quanto precisaria guardar por mês. Se a quantia não couber no orçamento, será preciso rever o prazo, ajustar o objetivo, reduzir despesas ou buscar formas de aumentar a renda”, finaliza a planejadora financeira.
5 dicas para aproveitar o presente sem comprometer o futuro
1. Conheça seu orçamento
Anote a renda líquida, as despesas fixas e os gastos variáveis para entender para onde o dinheiro está indo.
2. Defina metas financeiras
Estabeleça objetivos concretos, como comprar um imóvel ou fazer uma viagem, e calcule quanto precisa guardar por mês.
3. Comece a formar uma reserva
Separe uma quantia para imprevistos, mesmo que pequena. Inclua esse valor no planejamento mensal.
4. Estabeleça limites para os gastos
Divida o dinheiro disponível para despesas variáveis por semana. Assim, fica mais fácil acompanhar o consumo e evitar que os recursos acabem antes do fim do mês.
5. Avalie as compras parceladas
Antes de assumir uma nova prestação, confira se ela cabe no orçamento junto com os compromissos que já existem. Limite disponível no cartão não significa dinheiro sobrando.
Recursos para organizar o orçamento e tirar planos do papel
O Superapp Itaú reúne recursos que podem ajudar a acompanhar as despesas e planejar objetivos financeiros.
- Controle de Gastos: Organiza automaticamente as despesas por categorias, como mercado, delivery, transporte, pequenos gastos e assinaturas. Permite definir limites mensais e receber alertas quando os gastos se aproximam dos valores estipulados.
- Cofrinhos: Permitem separar dinheiro para objetivos específicos, como quitar dívidas, viajar ou comprar roupas. Com aportes a partir de R$ 1 e rendimento de 100% do CDI, ajudam a acompanhar os recursos destinados a cada meta.
