A adolescência é uma fase marcada por descobertas, maior autonomia e novas responsabilidades. É também um momento decisivo para construir a relação que cada pessoa terá com o dinheiro no futuro. Nesse período, os jovens começam a tomar decisões próprias de consumo, lidar com desejos mais complexos e enfrentar influências externas, especialmente das redes sociais e do grupo de amigos.
Por isso, especialistas defendem que a educação financeira não deve ser adiada para a vida adulta. Ao contrário: quanto mais cedo o jovem desenvolve consciência sobre escolhas e prioridades, maiores são as chances de construir uma relação equilibrada com o dinheiro.
De acordo com a pesquisa “Consciência e prosperidade: a nova relação do brasileiro com o dinheiro”, realizada pelo Itaú Unibanco em parceria com o Grupo Consumoteca, a geração mais conectada também é a que mais se preocupa com as finanças. Entre os jovens da Geração Z, 31% classificam a preocupação com dinheiro como “máxima”. Ao mesmo tempo, essa geração também é a mais ativa no uso de ferramentas digitais para organização financeira: 38% usam aplicativos de banco, 28% recorrem a cofrinhos digitais e 25% utilizam carteiras digitais.
Adolescência: fase de decisões e construção de autonomia
A psicóloga financeira infantil Priscila Rossi, que atua há mais de 15 anos com análise de comportamento e é idealizadora da Escola da Educação Financeira Infantil, além de autora de livros sobre o tema, explica que a adolescência representa um período importante para trabalhar esses aprendizados porque o jovem começa a ampliar sua autonomia e sua relação com o mundo. “É a fase em que ele inicia um processo natural de se desvincular um pouco mais da família e passa a valorizar muito o grupo de amigos”, argumenta.
Segundo ela, nessa etapa da vida o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas ligadas ao controle de impulsos e ao planejamento de longo prazo. Diante disso, aprender sobre dinheiro vai além de números ou contas. “A educação financeira nessa etapa ajuda o adolescente a desenvolver consciência sobre escolhas, consequências e prioridades. Não se trata apenas de aprender a lidar com dinheiro, mas de aprender a tomar decisões”, explica.
Esse aprendizado tende a influenciar diversas áreas da vida adulta, desde o consumo cotidiano até decisões mais complexas, como assumir dívidas, planejar estudos ou iniciar investimentos.
O papel da família nas primeiras lições sobre dinheiro
Apesar de muitas pessoas associarem educação financeira apenas a aulas ou conteúdos técnicos, grande parte desse aprendizado começa dentro de casa. O tema pode ser introduzido naturalmente nas conversas do dia a dia. Explicar como a família organiza o orçamento, planeja compras ou define prioridades ajuda a tornar o dinheiro um assunto mais transparente para os jovens.
Além de ensinar sobre dinheiro, esse tipo de diálogo fortalece a relação entre pais e filhos em uma fase da vida em que os adolescentes tendem a buscar mais independência. “Os pais podem explicar como organizam o orçamento da casa, como tomam decisões de compra ou como priorizam determinados gastos. Esses momentos do cotidiano são oportunidades muito ricas de aprendizagem”, garante.
A especialista também alerta para alguns erros comuns nesse processo. Um deles é tratar o tema de forma excessivamente técnica ou distante da realidade dos jovens. “Aprender sobre dinheiro envolve também desenvolver habilidades emocionais e comportamentais, como esperar, lidar com frustrações, fazer escolhas e entender consequências. Assim, a educação financeira nessas fases não deve ser apenas teórica”, defende.
O papel da mesada e das pequenas decisões
Uma das formas mais eficazes de ensinar educação financeira é transformar o aprendizado em experiência prática. Ferramentas como mesada ou semanada, por exemplo, permitem que o adolescente experimente na prática conceitos como planejamento, escolhas e prioridades. “Quando o adolescente administra um valor próprio, ele começa a lidar com escolhas, planejamento e frustração. Aprende que nem tudo pode ser comprado ao mesmo tempo e que algumas decisões exigem esperar”, ressalta Priscila Rossi.
Participar de decisões financeiras da família também pode ser uma experiência valiosa. Comparar preços antes de uma compra, planejar uma viagem ou discutir prioridades do orçamento são exemplos que ajudam o jovem a desenvolver consciência sobre o impacto das próprias escolhas.
Redes sociais e pressão por consumo
Se aprender a lidar com dinheiro já foi desafiador para gerações anteriores, o cenário atual traz uma camada adicional de complexidade: a influência constante das redes sociais.
Para o jovem empreendedor e investidor Deivyd Barros, de 20 anos, palestrante e fundador de uma empresa de educação financeira voltada especialmente para jovens entre 15 e 29 anos, muitos adolescentes ainda enxergam o dinheiro apenas como um objetivo final, sem refletir sobre seu propósito. “A grande virada está em entender que o dinheiro é um meio para conquistar algo: realizar sonhos, ter mais liberdade, apoiar a família, construir segurança”, salienta.
Na experiência dele, que hoje conversa com milhares de jovens por meio de palestras e conteúdos sobre educação financeira, a comparação nas redes sociais tem impacto no comportamento de consumo. “Isso cria a sensação de que, se você não tiver o celular do momento ou o tênis do momento, está ficando para trás. “Isso cria a sensação de que, se você não tiver o celular do momento ou o tênis do momento, está ficando para trás. Esse medo de estar perdendo algo - o famoso FOMO [sigla em inglês para fear of missing out, ou medo de ficar de fora, em tradução livre] - influencia diretamente o consumo”, pontua.
Por isso, tanto especialistas quanto educadores financeiros defendem que desenvolver senso crítico é uma habilidade essencial nessa fase da vida. “Os pais podem conversar com os filhos sobre como a publicidade funciona e explicar que muitos influenciadores são pagos para promover produtos. Isso ajuda o adolescente a entender que o desejo de consumir muitas vezes é estimulado externamente”, aconselha Priscila Rossi.
Educação financeira pode mudar trajetórias
A própria história de Deivyd Barros exemplifica o impacto que o contato precoce com educação financeira pode ter na vida de um jovem. Ele conta que começou a se interessar pelo tema ainda na adolescência, influenciado pelo irmão e por vídeos que assistia na internet. A partir daí, passou a estudar por conta própria. “Comecei com R$ 200 em moedas que tinha guardadas no cofrinho e, aos poucos, fui aprendendo mais”, lembra o empreendedor.
O interesse pelo tema acabou se transformando em um projeto maior. Hoje, ele é fundador de uma empresa de educação financeira com foco nos brasileiros, especialmente jovens entre 15 e 29 anos, que promove palestras e conteúdos voltados para esse público. “Educação financeira nessa fase não é só sobre números, é sobre formar comportamento, consciência e responsabilidade antes que os problemas apareçam”, defende.
Outro aprendizado que ele compartilha é entender que a relação com o dinheiro depende muito mais das decisões do que da renda em si. “Uma pessoa pode ganhar R$ 40 mil e gastar R$ 50 mil. Outra pode ganhar R$ 4 mil e ainda conseguir guardar R$ 200. Isso mostra que educação financeira está muito ligada ao comportamento”, destaca.
Ampliar o acesso à educação financeira entre jovens pode gerar impactos que vão além da vida individual. “Se mais jovens tivessem acesso à educação financeira desde cedo, teríamos uma sociedade mais preparada para lidar com dinheiro, menos vulnerável ao endividamento e mais capaz de transformar renda em qualidade de vida”, finaliza o palestrante.
Ferramentas digitais facilitam dia a dia
Além das conversas em família e da prática no cotidiano, ferramentas digitais do Itaú, disponíveis no Superapp, podem ajudar jovens a desenvolver hábitos financeiros mais organizados. Entre elas:
- Cofrinhos: Permitem criar metas financeiras personalizadas, ajudando a organizar o dinheiro por objetivos, como comprar um celular, fazer uma viagem ou montar uma reserva. É possível abrir até dez cofrinhos diferentes e começar a guardar a partir de R$ 1. O valor aplicado rende 100% do CDI e o acompanhamento pode ser feito diretamente pelo aplicativo, permitindo visualizar em tempo real quanto já foi guardado e quanto falta para atingir a meta.
- Controle de Gastos: Organiza automaticamente as despesas por categorias, como mercado, transporte, restaurantes e pequenos gastos do dia a dia. A ferramenta também permite definir limites de gasto por categoria e envia notificações quando o usuário se aproxima do valor estabelecido, ajudando a manter o planejamento financeiro em dia.
6 dicas para adolescentes começarem a se organizar financeiramente
1. Entenda o valor do dinheiro
Reconhecer que cada gasto está ligado a esforço e trabalho ajuda a desenvolver responsabilidade nas decisões.
2. Comece a guardar, mesmo que pouco
Criar o hábito de economizar é mais importante do que o valor inicial.
3. Questione seus impulsos de consumo
Antes de comprar algo, pergunte a si mesmo se aquilo é realmente necessário.
4. Aprenda a diferenciar desejo e necessidade
Nem tudo o que queremos precisa ser comprado imediatamente.
5. Evite promessas de dinheiro fácil
Apostas, modismos financeiros e ganhos rápidos podem esconder riscos.
6. Participe das decisões financeiras da família
Observar como o orçamento é organizado ajuda a entender como o dinheiro funciona na prática.
