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Neurodivergência e dinheiro: por que organizar o orçamento pode ser um desafio maior para algumas pessoas?

Características como impulsividade e hiperfoco podem influenciar a relação com as finanças; entender essas diferenças ajuda a construir estratégias mais sustentáveis

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Imagem de mulher sentada em um parque mexendo no celular
Imagem gerada por IA

Desde cedo, Rodrigo Ortiz Vinholo, hoje com 38 anos, aprendeu a lidar com desafios que nem sempre eram visíveis para quem estava à sua volta. A infância foi marcada pela timidez extrema, pela dificuldade de compreender regras sociais que pareciam naturais para os colegas e pela preferência por atividades solitárias. Cresceu, construiu uma carreira na publicidade, tornou-se jornalista, escritor, professor e publicou diversos livros. Ainda assim, havia situações do cotidiano que continuavam provocando um desgaste desproporcional.

"O dinheiro, por exemplo, sempre foi um fator de ansiedade", resume. Apesar de nunca ter enfrentado privações financeiras, ele conviveu durante muitos anos com o receio constante de esquecer uma conta, ser surpreendido por tarifas ou precisar resolver pendências bancárias que exigissem conversar com gerentes ou enfrentar processos burocráticos. "Tenho dinheiro guardado e uma rotina organizada, mas ainda é uma daquelas coisas que me tira do eixo se preciso lidar com alguma demanda incomum", relata.

Foi apenas depois dos 30 anos que Rodrigo descobriu ser autista. Durante a pandemia da covid-19, ao buscar ajuda para compreender a ansiedade persistente e as dificuldades de relacionamento, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte e de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). A partir desse novo entendimento, passou a reorganizar a própria vida.

Estimativas apontam que entre 10% e 20% da população mundial seja neurodivergente, considerando condições como autismo, TDAH, dislexia e dispraxia. No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mas como diferentes formas de funcionamento cognitivo podem influenciar a maneira de lidar com o dinheiro?

De acordo com a psicóloga financeira Paula Cerqueira, não existe um padrão único de comportamento financeiro entre indivíduos neurodivergentes. “A forma como alguém administra as finanças resulta da combinação entre funcionamento cognitivo, história de vida, educação financeira, contexto socioeconômico, emoções e experiências pessoais. O diagnóstico, portanto, representa apenas uma parte dessa trajetória”, afirma.

O que é a neurodivergência?

O termo descreve pessoas cujo funcionamento neurológico difere do que costuma ser considerado o padrão da população. Não se trata de uma doença nem de um diagnóstico específico, mas de um conceito que reúne diferentes formas de processamento, aprendizagem, comunicação e interação com o mundo.

Entre as condições mais frequentemente associadas à neurodivergência estão o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a dislexia, a discalculia e a síndrome de Tourette. Cada uma apresenta características próprias e pode se manifestar de maneiras bastante diferentes entre as pessoas.

Entre saber e fazer, existe um obstáculo

Durante muito tempo, a educação financeira concentrou esforços em ensinar conceitos: como montar um orçamento, controlar gastos, investir ou criar uma reserva de emergência. Essas orientações continuam importantes, mas partem de uma premissa nem sempre verdadeira: a de que todas as pessoas conseguem transformar conhecimento em comportamento da mesma maneira.

A gestão financeira depende de habilidades como atenção, planejamento, organização, tomada de decisão, criação de hábitos, flexibilidade diante de imprevistos e regulação emocional. “Dependendo das características de cada pessoa, algumas dessas funções podem exigir mais esforço para serem colocadas em prática, influenciando a maneira como ela organiza a vida financeira”, ressalta Cerqueira, que também é administradora e especialista em finanças e gestão de negócios.

Por isso, compreender conceitos financeiros não garante, necessariamente, que eles serão incorporados à rotina. "Muita gente sabe que deveria organizar um orçamento, evitar compras impulsivas ou acompanhar seus gastos, mas encontra dificuldade para transformar essa intenção em uma rotina consistente", explica a psicóloga. "Isso não significa falta de interesse, capacidade ou conhecimento, mas a necessidade de estratégias compatíveis com seu modo de funcionamento”, completa a especialista.

Essa distinção é importante porque desloca a conversa da culpa para a execução. Em vez de concluir que alguém é "desorganizado" ou "indisciplinado", o desafio passa a ser compreender quais obstáculos dificultam a manutenção de determinados hábitos e quais recursos podem reduzir esse esforço.

Rodrigo reconhece esse processo na própria experiência. Ao longo dos anos, desenvolveu métodos para organizar a rotina e hoje consegue administrar bem as tarefas do cotidiano. Ainda assim, assuntos financeiros continuam exigindo uma quantidade de energia muito maior do que gostaria. Ele cita, por exemplo, o cansaço provocado pela necessidade de acompanhar investimentos e o desgaste das interações necessárias para resolver questões bancárias. "Ver que outras pessoas conseguem lidar com isso com mais facilidade é algo que sempre me incomodou, mesmo depois de entender minha neurodivergência", destaca.

Diferentes características, impactos diferentes

Cada condição pode influenciar a relação com o dinheiro de maneiras distintas, mas o diagnóstico, isoladamente, diz pouco sobre como alguém administra as próprias finanças. Pessoas com perfis neurodivergentes distintos podem enfrentar desafios semelhantes por razões completamente diferentes. Da mesma forma, indivíduos com a mesma condição podem apresentar comportamentos financeiros bastante diferentes. Ou seja, características frequentemente associadas à neurodivergência não devem ser vistas apenas como obstáculos.

A impulsividade pode favorecer respostas rápidas em determinadas situações, mas também aumentar a probabilidade de compras não planejadas. O hiperfoco pode facilitar o aprendizado sobre investimentos ou planejamento financeiro, ao mesmo tempo em que faz a pessoa dedicar tempo e recursos excessivos a um único interesse, deixando áreas importantes da vida financeira em segundo plano. Já a ansiedade pode estimular o planejamento quando está sob controle, mas também levar ao adiamento de decisões ou à preocupação constante com dinheiro quando se torna intensa.

Há, ainda, a sobrecarga cognitiva ou mental. Quando boa parte da energia mental já está sendo utilizada para lidar com as demandas do cotidiano, atividades como conferir o extrato bancário, revisar o orçamento ou organizar documentos podem parecer muito maiores do que realmente são. O resultado costuma ser o adiamento sucessivo dessas tarefas - não por desconhecimento, mas porque iniciá-las exige um esforço difícil de sustentar.

Adaptar não é facilitar

A ideia de educação financeira costuma estar associada a fórmulas universais: registrar todos os gastos, revisar planilhas, acompanhar investimentos e manter um planejamento para diferentes etapas da vida. Paula Cerqueira defende uma lógica diferente. Para ela, adaptar estratégias financeiras não significa reduzir a autonomia ou criar um caminho mais fácil, mas encontrar formas de organização compatíveis com o funcionamento de cada pessoa. "Uma mesma estratégia não funciona da mesma forma para todas as pessoas. Ou seja, adaptar é construir formas de organização financeira compatíveis com as características, necessidades e recursos de cada indivíduo”, argumenta.

A adaptação pode assumir diferentes formas. Dividir tarefas grandes em pequenas etapas, utilizar recursos visuais, estabelecer rotinas previsíveis, concentrar compromissos financeiros em um único calendário ou reduzir o número de decisões necessárias durante o dia são exemplos de mudanças que diminuem a carga cognitiva e aumentam a probabilidade de que os hábitos sejam mantidos ao longo do tempo.

Também é importante abandonar a busca por um método perfeito. Segundo a especialista, quando determinada estratégia não funciona, isso não significa falta de esforço ou responsabilidade. Muitas vezes, apenas indica que aquele modelo não conversa com as necessidades da pessoa. "A culpa e a frustração tendem a afastar as pessoas da gestão financeira", salienta.

Tecnologia pode reduzir o esforço mental

Centralizar diferentes tarefas financeiras em uma única plataforma também pode ajudar a diminuir a quantidade de informações que precisam ser administradas diariamente. Em vez de alternar entre aplicativos de banco, planilhas, calendários e lembretes, reunir pagamentos, controle de despesas e organização do orçamento em um só lugar reduz a quantidade de etapas e decisões exigidas no dia a dia.

No Superapp Itaú, por exemplo, funcionalidades como o Controle de Gastos, que categoriza automaticamente as despesas, os Cofrinhos, que permitem separar dinheiro para diferentes objetivos financeiros, e o Pix Recorrente, que automatiza pagamentos frequentes, ajudam a simplificar a rotina e reduzir parte da carga cognitiva envolvida na gestão do dinheiro.

Mas a tecnologia, por si só, não resolve tudo. Como ressalta Paula Cerqueira, o benefício está menos na quantidade de funcionalidades disponíveis e mais na capacidade de cada pessoa encontrar funcionalidades que sejam compatíveis com seu jeito de se organizar. "O mais importante não é a quantidade de recursos disponíveis, mas escolher aqueles que sejam compatíveis com as necessidades, preferências e forma de funcionamento de cada pessoa", enfatiza.

Foi justamente esse processo que Rodrigo viveu. Ao longo dos anos, ele incorporou soluções que diminuíram parte do desgaste provocado pela administração das finanças. O Pix facilitou pagamentos que antes exigiam etapas mais demoradas, enquanto a evolução dos aplicativos bancários tornou a rotina menos pesada. "No geral, sou adepto de agendas e listas de tarefas, e com elas consigo me organizar muito bem para todas essas minhas atribuições", revela.

Autonomia também significa contar com apoio

Quando as dificuldades financeiras aparecem de forma recorrente, é comum que familiares tentem assumir o controle das contas para evitar problemas. Embora bem-intencionada, essa atitude pode acabar reduzindo a autonomia da pessoa.

Para Paula Cerqueira, o apoio mais efetivo é aquele que fortalece a participação nas decisões, sem substituir quem vive aquela realidade. "Autonomia não significa fazer tudo sozinho, mas ter condições de participar das decisões e administrar a própria vida com os apoios de que necessita", finaliza a especialista, coautora do livro DNA Financeiro.

Como tornar a organização financeira mais leve

1. Automatize o que for recorrente

Débito automático, lembretes e alertas reduzem o esforço de lembrar datas e vencimentos.

2. Escolha uma única ferramenta de organização

Em vez de testar vários aplicativos ao mesmo tempo, encontre um sistema que funcione para sua rotina e mantenha constância.

3. Divida tarefas grandes em pequenas etapas

Conferir uma conta hoje pode ser mais eficiente do que tentar reorganizar toda a vida financeira de uma só vez.

4. Evite buscar um método perfeito

Ajustar estratégias faz parte do processo. O melhor modelo é aquele que consegue permanecer na rotina.

5. Se necessário, procure apoio

O acompanhamento psicológico - e, quando indicado, médico - pode ajudar a desenvolver estratégias mais adequadas para a relação com o dinheiro.

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