Quando uma criança ou adolescente recebe o primeiro cartão, seja para a mesada, emergências ou ajudar nas pequenas decisões do dia a dia, acessa um novo território: o mundo do dinheiro digital. Esse passo amplia a autonomia, mas também traz novos riscos próprios da vida conectada.
Por isso, antes de entregar o cartão, a conversa sobre segurança digital deixa de ser opcional e passa a ser indispensável. É a oportunidade de preparar cada criança para usar o dinheiro com consciência e proteger-se no ambiente online.
Segundo pesquisa Finanças para os filhos: dinheiro é coisa de adulto?, de 2025, da Serasa com o Instituto Opinion Box (2025), 53% dos pais já falam sobre dinheiro com os filhos antes dos 8 anos, e 73% das pessoas têm acesso ao primeiro cartão ou conta antes dos 15 anos. Ao mesmo tempo, 39% das crianças usam Pix como forma de pagamento e 28% recebem mesada por meio digital.
Para a psicóloga financeira infantil Priscila Rossi, o ambiente digital funciona como uma “cidade sem placas” para crianças e adolescentes: há caminhos seguros, mas também atalhos arriscados. “Sem referências bem definidas, o jovem não sabe diferenciar o que é seguro do que é perigoso”, afirma ela, que é autora do livro ilustrado ‘Os três cofrinhos e o lobo’, com dicas de educação financeira para crianças.
Preparando o primeiro contato com o cartão
Antes de liberar o cartão ou o acesso ao aplicativo, a especialista recomenda que os pais e responsáveis mostrem o app por dentro, explicando o que cada função significa, e apresentem cenários reais, como o que acontece quando alguém perde o celular ou cai em um golpe. Rossi também sugere transformar as primeiras semanas em um período de acompanhamento (não como fiscalização, mas como uma etapa de aprendizado conjunto), no qual o jovem possa tirar dúvidas e se familiarizar com o uso seguro da tecnologia.
Para a psicóloga, o objetivo desse diálogo não é gerar medo, e sim estimular autonomia. “Quando a conversa transmite confiança, o jovem entende que não está sendo controlado, e sim que está sendo preparado para o presente e para o futuro”, garante a especialista.
Riscos no ambiente digital

Crianças e adolescentes são mais vulneráveis a golpes porque ainda estão desenvolvendo autocontrole e pensamento crítico. Isso os deixa mais expostos a riscos comuns, como o compartilhamento de dados pessoais em jogos e redes sociais, “promoções irresistíveis” que escondem golpes, compras por impulso, assinaturas que passam batido, pedidos de ajuda financeira de contas hackeadas e até a pressão por consumo de colegas e influenciadores. Esses fatores tornam o ambiente digital mais complexo e reforçam a importância de preparar os jovens antes que eles enfrentem essas situações na prática.
A orientação também muda conforme a idade, lembra a psicóloga Priscila Rossi. Para crianças, exemplos simples e visuais ajudam a criar compreensão. “Se alguém te pedir sua senha, isso é como entregar a chave da sua casa”, aconselha. Para adolescentes, o foco pode se voltar para o impacto das próprias escolhas: gastos impulsivos, riscos de compartilhar informações e a importância de pensar antes de clicar.
Outras estratégias são estabelecer parâmetros de uso, como limites de gastos, o que pode ou não usar e com quem falar em caso de dúvida, além de ensinar noções básicas de proteção digital, como não compartilhar senhas, desconfiar de links e nunca enviar Pix por impulso. “A educação financeira envolve também educação emocional”, lembra a psicóloga. “Entender desejo, necessidade e pressão social é parte fundamental da segurança digital”, reforça.
Risco na palma da mão
A relações-públicas amazonense Aretha Lins, de 48 anos, mãe da Giovanna, de 12 anos, vive esse processo dentro de casa. Ela abriu uma conta poupança para a filha aos 10 anos, inicialmente apenas para juntar uma graninha. Agora, a menina passou a movimentá-la. Por conta disso, o diálogo foi potencializado. “Pergunto sempre se ela realmente precisa daquilo que quer comprar. Tento fazê-la pensar antes de gastar”, conta.
A mesada é usada para lanches, pequenos desejos e economias planejadas. A pré-adolescente já percebe que juntar dinheiro para algo maior gera satisfação. Mas a segurança digital também entrou cedo na conversa. A mãe ensina a filha a não emprestar cartão, não fazer Pix para desconhecidos e nunca clicar em links suspeitos.
A regra de cuidado dentro de casa ficou ainda mais firme depois de um episódio que deixou Aretha em alerta. Tudo começou quando uma menina desconhecida iniciou uma conversa com Giovanna pelo WhatsApp, dizendo ser colega de outra escola de Manaus. O perfil tinha apenas uma foto e, rapidamente, o assunto mudou para o que realmente chamava atenção: a suposta colega perguntou se a pré-adolescente tinha conta bancária e se poderia fazer um Pix.
Estranhando o pedido, Aretha orientou a filha a bloquear e denunciar o contato. As duas ainda tentaram ligar de volta para o número, mas ninguém atendeu, o que reforçou a suspeita de que alguém estivesse se passando por outra pessoa. “Episódios assim mostram como muitas crianças recebem celular muito cedo e ainda não têm repertório para identificar sinais de risco”, enfatiza a relações-públicas.
Ferramentas que ajudam na proteção
Além da conversa entre pais e filhos, ter uma estrutura digital segura faz diferença. O Itaú reúne no Superapp uma série de funcionalidades pensadas exatamente para reduzir riscos e dar mais tranquilidade às famílias.
A Área de Segurança centraliza recursos que permitem acompanhar, configurar e personalizar as principais camadas de proteção digital, entre elas:
- Cartão virtual, ideal para compras online, reduzindo risco de clonagem.
- Proteção para compras online, que permite bloquear pagamentos pela internet.
- Bloqueio temporário, para travar o cartão em segundos em caso de perda.
- Gerenciamento de senhas e reconhecimento facial.
- Dispositivo autorizado e iToken, garantindo que apenas aparelhos confiáveis tenham acesso.
- Ajuste de limites, permitindo reduzir o limite do cartão sempre que necessário.
- Alertas inteligentes, como aviso de chaves Pix suspeitas ou interrupção de ligações falsas.
Esses recursos funcionam como uma rede de apoio para pais e jovens: simples de visualizar e essenciais em situações inesperadas, sem substituir o protagonismo do diálogo em família.
E quando o celular é perdido ou roubado?
Esse é um dos cenários mais importantes para conversar antes de liberar o cartão, pois a primeira hora após o incidente é decisiva. As orientações precisam estar bem definidas:
- Bloquear chip e aparelho na operadora;
- Bloquear contas e cartões pelos canais oficiais do banco;
- Usar localização e limpeza de dados do Android ou iOS;
- Trocar senhas essenciais, começando pelo e-mail;
- Registrar boletim de ocorrência, se necessário.
Ensinar esse protocolo aos filhos, de forma simples e prática, reforça a autonomia e reduz danos em momentos de tensão, ajudando o jovem a agir com rapidez caso passe por uma situação de perda ou roubo do celular.
Educação financeira é processo contínuo
Transformar esses cuidados em rotina familiar começa com hábitos simples, como fazer uma “revisão semanal” dos gastos, olhando a fatura juntos, e celebrar boas escolhas, seja uma economia, uma compra planejada ou uma decisão consciente. Também vale criar metas, mesmo pequenas, como juntar para um livro, um jogo ou um passeio, incentivando o jovem a perceber resultados do próprio planejamento.
Além disso, é importante manter o canal aberto para dúvidas, sem julgamentos, e revisitar as regras sempre que necessário, acompanhando o ritmo de crescimento e autonomia da criança ou adolescente. Educação financeira não é um único bate-papo, mas um processo contínuo (que costuma ser mais leve quando vivido em parceria).
