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Da viralização aos contratos: como influenciadores transformam conteúdo em fonte de renda?

Naiane Sampaio, personagem de Coração Acelerado, inspira debate sobre remuneração, formalização e desafios para converter engajamento em dinheiro

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Por Redação Feito.Itaú em
Foto da personagem Naiane Sampaio, da novela Coração Acelerado

A vida de likes, viagens e parcerias parece um roteiro perfeito. Em Coração Acelerado, novela da TV Globo, a influenciadora digital Naiane Sampaio, interpretada pela atriz Isabelle Drummond, cresce cercada de luxo, viraliza com coreografias e transforma cada movimento em engajamento nas redes sociais. É o tipo de perfil que faria qualquer um pensar: basta postar, bombar e faturar.

No entanto, fora da ficção, o algoritmo não entrega tudo sozinho. O caminho entre um vídeo viral e uma renda estável passa por tentativa, estratégia e, principalmente, organização financeira. Nesta reportagem, a história da personagem vira ponto de partida para uma conversa mais realista sobre dinheiro na creator economy (economia dos criadores, em tradução livre). Spoiler: nem todo mundo está vivendo de “publi” milionária, não.

Quando o conteúdo conecta, o público vem

Antes de qualquer contrato, existe uma coisa que não se negocia: conexão. E foi exatamente isso que impulsionou a trajetória da influenciadora Carol Peluffo, de 44 anos. Mãe de quatro meninos, ela construiu seu espaço nas redes mostrando uma maternidade sem filtro, com humor e situações do dia a dia com as quais muita gente se identifica na hora.

O começo de tudo foi em janeiro de 2023, com um vídeo simples, gravado depois da academia, em que falava sobre o verdadeiro motivo de sair de casa para treinar: ter um tempo para respirar no meio da rotina intensa com os filhos. O resultado foi imediato: em um fim de semana, foram 15 mil novos seguidores no perfil dela no Instagram, o @carolpeluffo. “Eu entendi que existiam muito mais mães reais no mundo do que só eu”, relembra.

Hoje, com mais de meio milhão de seguidores na plataforma, Carol se posiciona em um nicho altamente engajado. Seu conteúdo gira em torno da maternidade real, com uma linguagem leve, direta e bem-humorada. O recorte faz diferença na hora de atrair marcas, que buscam exatamente esse tipo de conexão com o público.

Mas, diferente dos primeiros seguidores, o dinheiro não chegou rápido para a moradora do Rio de Janeiro. Primeiro vieram os “recebidos” (produtos ou serviços enviados pelas marcas em troca de divulgação), depois as comissões por venda e, só então, as campanhas pagas. Foi um processo gradual, que ajuda a entender como o mercado funciona.

Afinal, quanto ganha um influenciador?

Quem navega pelas redes sociais pode ter a impressão de que todo influenciador vive uma rotina de luxo. Mas os números mostram outro cenário. A pesquisa Creators e Negócios, realizada pela Brunch em parceria com a Youpix, revela que 50% dos criadores ganham até R$ 5 mil por mês. Apenas uma pequena parcela (6%) ultrapassa os R$ 20 mil. Já um levantamento da Influency.me indica que 27% recebem até R$ 500 mensais, enquanto 33% ficam entre R$ 500 e R$ 2 mil.

Ou seja, o topo existe, mas está longe de ser a regra. Com mais de 15 anos de atuação na creator economy, trabalhando com marcas globais e renomados criadores de conteúdo, a professora, pesquisadora e estrategista digital Liliane Ferrari explica que não dá para olhar apenas para o número de seguidores quando se pensa na remuneração desses profissionais. “Os valores dependem de um conjunto de fatores, como reputação, tipo de conteúdo e impacto das publicações”, afirma.

Isso significa que um perfil menor, mas com audiência engajada e comentários genuínos, pode ser mais interessante para uma marca do que um perfil grande e distante do público. Carol viveu essa dúvida no início da carreira. “A gente não sabe quanto cobrar. Fica perdido entre seguidores, visualizações, engajamento”, salienta.

Ficção x realidade

Se na novela a ascensão acontece quase como mágica, no mundo real existe um modelo por trás. No começo, a renda costuma vir de diferentes frentes, muitas vezes combinadas. Permutas, comissões por vendas e monetização de plataformas aparecem como portas de entrada. Com o tempo, surgem campanhas pagas, contratos mais estruturados e parcerias de longo prazo.

Mais do que o formato de pagamento, o que está em jogo é a confiança. “Trata-se de associar a própria imagem a uma marca. Isso exige responsabilidade com o que se divulga e atenção à forma como a mensagem chega ao público”, garante a influenciadora Carol Peluffo.

Esse cuidado também é percebido pelas empresas. Comentários de identificação, compartilhamentos e conversas reais nos posts costumam pesar mais do que números inflados. Afinal de contas, influência não é só alcance, é credibilidade.

Crescer é uma coisa. Sustentar é outra!

O Brasil já soma milhões de influenciadores e está entre os maiores mercados do mundo. Segundo a Influency.me, surgiram cerca de 100 mil novos criadores em 2025, levando o país a mais de 2,1 milhões de profissionais. Em paralelo, relatório da HypeAuditor aponta que o Brasil ocupa a segunda posição global em número de influenciadores no Instagram, concentrando 10,2% dos influenciadores da plataforma no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Esse crescimento mostra o tamanho da oportunidade, mas também aumenta a concorrência. E é nesse ponto que entra a estratégia. Para Liliane Ferrari, algumas ações fazem diferença no longo prazo: escolher um nicho, construir uma audiência engajada e diversificar as fontes de renda. Depender apenas de publicidade pode deixar o criador vulnerável às oscilações do mercado.

A especialista também faz um alerta sobre propostas desvantajosas, comuns principalmente no início da carreira dos produtores de conteúdo. Aceitar múltiplas entregas por valores baixos ou condições incertas pode parecer uma porta de entrada e a oportunidade ideal para a criação de um portfólio, mas tende a desvalorizar o mercado.

De perfil a empresa

Chega um momento em que o conteúdo deixa de ser só conteúdo e vira negócio. Para o contador e conselheiro do Conselho Regional de Contabilidade do Pará (CRC/PA), Rafael Santa Brígida, essa necessidade costuma surgir quando a renda passa de pontual para recorrente. “A formalização ajuda a reduzir a carga tributária, transmite mais profissionalismo e facilita negociações com marcas”, ressalta.

Isso significa abrir um CNPJ e entender em qual porte o negócio se encaixa. Para quem está começando, o modelo mais comum é o Microempreendedor Individual (MEI), que permite faturamento de até R$ 81 mil por ano. Acima desse limite, o influenciador precisa migrar para categorias como Microempresa ou Empresa de Pequeno Porte, que comportam faturamentos maiores e exigem uma estrutura mais organizada.

Com a formalização, surgem também responsabilidades que não aparecem no feed. Declarar rendimentos, organizar o fluxo de caixa e separar o que é pessoal do que é profissional deixam de ser recomendação e passam a ser obrigação.

Um dos pontos mais ignorados por quem está começando envolve justamente a parte fiscal. Muitos criadores não sabem, por exemplo, que precisam declarar todos os rendimentos, incluindo permutas. Dependendo da estrutura e da renda, pode haver incidência de tributos como Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) e Imposto de Renda (IR), além da obrigatoriedade de emissão de notas fiscais.

Na rotina, a falta de organização costuma aparecer rápido e até causar prejuízos. Segundo Rafael, erros simples podem comprometer as finanças dos criadores de conteúdo:

  • Misturar dinheiro pessoal com o do trabalho;
  • Não separar valores para pagamento de impostos;
  • Gastar toda a renda sem planejamento;
  • Não ter controle de entradas e saídas.

Outro desafio é lidar com a instabilidade. “Diferente de um salário fixo, a renda do influenciador digital oscila. Por isso, a recomendação é criar uma reserva de segurança, manter um controle financeiro rigoroso e definir um pró-labore mensal [remuneração fixa], mesmo que os ganhos variem ao longo do tempo”, aconselha Santa Brígida.

Transforme engajamento em remuneração

Para quem quer ir além do alcance e realmente gerar renda, é preciso mais do que viralizar. A experiência de criadores e especialistas evidencia que pequenas mudanças na forma de trabalhar podem fazer diferença no longo prazo.

A seguir, algumas estratégias que ajudam a converter o engajamento do público em oportunidades efetivas e sustentáveis para influenciadores digitais:

1. Construa conexão antes de pensar em venda

Perfis que geram identificação tendem a atrair mais oportunidades. Comentários, compartilhamentos e conversas reais valem mais do que números altos sem interação.

2. Entenda o seu valor para negociar melhor

No início, é comum ficar perdido sobre quanto cobrar. Avalie não só seguidores, mas engajamento, nicho e capacidade de influência sobre o público.

3. Diversifique as fontes de renda

Depender apenas de publicidade pode ser arriscado. Comissões por vendas, monetização de plataformas e outras frentes ajudam a dar mais estabilidade.

4. Aprenda a dizer não

Nem toda proposta vale a pena. Evitar parcerias desvantajosas é essencial para não desvalorizar o próprio trabalho no longo prazo.

5. Trate o perfil como um negócio

Organização financeira, formalização e planejamento fazem diferença. Separar contas, emitir nota fiscal e acompanhar ganhos e gastos ajuda a sustentar o crescimento.

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