O endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo recorde. Em maio deste ano, 81,6% dos lares tinham algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). É o maior percentual já registrado pela série histórica e o quinto mês consecutivo de crescimento.
O avanço do endividamento ocorre em um cenário de inadimplência também recorde. Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil mostram que 75 milhões de consumidores estavam com contas em atraso em maio, o equivalente a 44,8% da população adulta. Em média, cada inadimplente devia R$ 5.145,04 e possuía débitos com 2,34 empresas credoras.
Por trás desses números estão situações muito diferentes entre si. Há quem tenha recorrido ao crédito para enfrentar um período de desemprego, quem tenha acumulado parcelas após um imprevisto de saúde e quem simplesmente perdeu de vista o tamanho dos compromissos assumidos ao longo dos meses. Em comum, muitas dessas pessoas compartilham a mesma sensação: a de não saber por onde começar.
A recuperação financeira, porém, não começa necessariamente na renegociação. Antes disso, existe uma etapa menos visível, mas decisiva: entender a própria situação. A partir desse diagnóstico, fica mais fácil definir prioridades, reorganizar o orçamento e tomar decisões que ajudem a interromper o ciclo do endividamento. Confira, a seguir, o caminho para construir uma recuperação financeira sustentável.
Passo 1: interrompa o crescimento da dívida
Quando o orçamento já não fecha, é comum buscar soluções rápidas para aliviar a pressão do momento. Parcelar mais uma compra, recorrer a um novo empréstimo ou usar novamente o limite do cartão pode parecer uma saída imediata. O problema é que essas decisões costumam ampliar um desequilíbrio que já existe.
Portanto, antes de pensar em quitar dívidas, é importante interromper esse movimento. Isso significa evitar novos compromissos financeiros, revisar gastos e entender se a renda atual é suficiente para sustentar as despesas básicas da casa.
Para o administrador e planejador financeiro Leandro Trajano, especialista em finanças pessoais e educação financeira, esse processo começa por uma mudança de postura. "Quem está no buraco precisa parar de cavar", resume. Segundo ele, ter domínio sobre receitas e despesas ajuda a identificar oportunidades de ajuste no orçamento e cria condições para que as próximas decisões financeiras sejam tomadas de forma mais consciente.
Passo 2: transforme a preocupação em informação
Uma das características do endividamento é a sensação de que os problemas são maiores do que realmente são. Isso acontece porque muitas pessoas conhecem suas dívidas de forma fragmentada: lembram da fatura do cartão, da parcela do empréstimo ou da conta atrasada, mas não conseguem visualizar o quadro completo.
O primeiro exercício é reunir todas essas informações em um único lugar. Pode ser uma planilha, um aplicativo ou até mesmo uma folha de papel. O ideal é registrar quem é o credor, qual é o saldo devedor, quantas parcelas ainda faltam pagar, quais são os juros envolvidos e se existe alguma proposta de negociação em andamento.
O levantamento ajuda a identificar quanto das despesas mensais já está comprometido com dívidas e quanto ainda sobra para manter a rotina da família. "A pessoa precisa conhecer a sua real situação. Quando ela organiza essas informações, passa a entender o tamanho do problema e consegue definir prioridades", ressalta Trajano.
Passo 3: descubra para onde o dinheiro está indo
Depois de mapear as dívidas, chega o momento de observar os gastos do dia a dia. Muitas vezes, a dificuldade financeira não está associada apenas ao valor devido, mas à falta de visibilidade sobre como o dinheiro é utilizado ao longo do mês. Assim, anotar despesas permite identificar padrões de consumo, reconhecer excessos e entender quais gastos realmente fazem parte da rotina essencial da casa.
Uma estratégia que pode ajudar é separar as despesas em três grupos: essenciais, ajustáveis e dispensáveis. Moradia, alimentação, saúde e transporte entram na primeira categoria. Já assinaturas pouco utilizadas, compras por impulso e gastos recorrentes que perderam o sentido podem ser revistos temporariamente. O objetivo não é transformar a rotina em um período permanente de restrições, mas encontrar espaço no orçamento para reorganizar as finanças.
Passo 4: envolva quem compartilha as contas com você
Quando a renda e as despesas são divididas, a recuperação financeira também precisa ser. Conversar sobre dinheiro nem sempre é confortável, mas esconder problemas financeiros costuma gerar ainda mais desgaste dentro de casa. Por isso, vale envolver cônjuge, filhos ou outros familiares que participam da rotina financeira.
Alinhar expectativas, revisar prioridades e estabelecer objetivos em conjunto reduz conflitos e aumenta as chances de que todos caminhem na mesma direção.
Passo 5: defina a ordem das prioridades
Nem todas as dívidas produzem o mesmo impacto sobre a vida financeira. Algumas afetam diretamente o funcionamento da casa, enquanto outras se tornam mais perigosas por causa dos juros elevados.
Antes de qualquer coisa, é importante preservar serviços essenciais, como água, energia elétrica e moradia. Em seguida, vale direcionar atenção para as dívidas que apresentam maior potencial de crescimento, como cartão de crédito e cheque especial.
Segundo Trajano, “essas obrigações podem se transformar rapidamente em uma avalanche financeira, consumindo uma parcela cada vez maior da renda familiar”, alerta o especialista, autor de 23 livros e palestrante internacional.
Passo 6: procure alternativas para renegociar
Com as informações organizadas e as prioridades definidas, fica mais fácil avaliar possibilidades de renegociação. Dependendo da situação, é possível conseguir descontos, ampliar prazos de pagamento ou substituir uma dívida mais cara por outra com condições mais favoráveis.
O mais importante é verificar se o compromisso assumido cabe no orçamento e pode ser mantido até o final. Uma renegociação que gera novas dificuldades alguns meses depois tende apenas a adiar o problema.
Recuperação financeira acontece aos poucos
Quem enfrenta dificuldades financeiras costuma procurar uma solução imediata. No entanto, a reorganização das contas costuma ser construída etapa por etapa. Trajano costuma explicar esse momento a partir de uma reflexão: "Um fim doloroso ou uma dor sem fim?", indaga.
De acordo com o planejador financeiro, há pessoas que convivem durante anos com a pressão constante das dívidas, adiando decisões que poderiam interromper esse ciclo. A alternativa envolve aceitar mudanças de hábitos, rever escolhas e construir uma relação mais consciente com o dinheiro. "Não dá para continuar fazendo as mesmas coisas e esperar resultados diferentes", salienta.
Dicas para começar sua reorganização financeira
- Liste todas as suas dívidas em um único lugar;
- Anote receitas e despesas durante pelo menos 30 dias;
- Evite assumir novos parcelamentos enquanto reorganiza as contas;
- Priorize despesas essenciais e dívidas com juros mais altos;
- Converse com a família sobre metas e ajustes temporários;
- Avalie oportunidades de renegociação;
- Procure formas de complementar a renda, se possível;
- Reserve um momento da semana para acompanhar suas finanças.
Desenrola Brasil: como renegociar dívidas pelo Itaú
Para quem chegou à etapa da renegociação, o Desenrola Brasil pode ajudar a encontrar condições mais favoráveis para regularizar pendências financeiras. Criado pelo Governo Federal, o programa contempla, entre outros públicos, pessoas com renda de até cinco salários mínimos que possuam contratos de cartão de crédito, cheque especial ou crédito pessoal firmados até 31 de janeiro de 2026 e com atraso entre 91 dias e dois anos.
No Itaú, a consulta e a renegociação podem ser feitas de forma digital, pelo Superapp, pelo site de renegociação ou pelo WhatsApp oficial do banco (11 4004-1144). Dependendo do perfil da dívida e das condições disponíveis para cada caso, as negociações podem incluir descontos de até 90% sobre o valor devido, juros limitados a 1,99% ao mês, parcelamento em até 48 meses e prazo de até 35 dias para o pagamento da primeira parcela.
Antes de fechar um acordo, o cliente pode simular diferentes opções de pagamento e verificar qual delas se encaixa melhor no orçamento. A recomendação é consultar os canais oficiais do Itaú para conferir a elegibilidade dos contratos e as condições disponíveis para cada caso.
