Uma conversa agradável, interesses em comum, trocas de mensagens e planos para o futuro. O que parece o início de uma história de amor pode esconder um golpe. Conhecido como golpe do amor online, estelionato afetivo ou estelionato amoroso, esse tipo de crime cresce à medida que os relacionamentos migram para o ambiente digital e os criminosos encontram novas ferramentas para manipular emoções e explorar vulnerabilidades.
Acontece assim: alguém cria um perfil falso, desenvolve um vínculo emocional com a vítima e, após conquistar sua confiança, passa a pedir dinheiro, dados bancários ou informações pessoais. O que mudou nos últimos anos foi a escala e a sofisticação dessas operações.
O crescimento desse tipo de golpe é parte de um cenário maior: fraudes digitais causaram prejuízos de US$ 442 bilhões no mundo em 2025, segundo a Interpol. O número engloba diferentes modalidades de crimes virtuais, desde golpes financeiros até fraudes de identidade. Nesse universo, os crimes que exploram relações afetivas vêm ganhando espaço com o uso de inteligência artificial, perfis falsos mais convincentes e estratégias de manipulação cada vez mais sofisticadas.
O que é o golpe do amor?
O golpe do amor é uma fraude baseada em engenharia social. Os criminosos constroem uma falsa relação amorosa e, depois de ganhar a confiança da vítima, inventam histórias envolvendo emergências, doenças, dívidas ou dificuldades profissionais para justificar pedidos de dinheiro. Também são comuns casos em que o golpista se apresenta como estrangeiro, dando origem ao chamado golpe do amor estrangeiro, uma das modalidades mais recorrentes.
Embora existam variações, o roteiro costuma seguir etapas semelhantes. Primeiro, o criminoso cria um perfil atraente em aplicativos de relacionamento ou redes sociais. Em seguida, busca estabelecer uma conexão rápida e intensa. Médicos, militares, engenheiros, empresários e até famosos ou figuras públicas aparecem com frequência entre as identidades assumidas pelos fraudadores.
O objetivo é construir a imagem do parceiro ideal. As conversas são frequentes, há demonstrações de carinho, promessas de futuro e referências a detalhes pessoais compartilhados pela vítima ao longo do relacionamento. “Os criminosos usam roteiros de conversa adaptados às respostas da vítima. A tecnologia facilita a criação de identidades falsas e o gerenciamento de múltiplas conversas simultâneas”, explica o especialista em tecnologia Denis Paes Barreto.
Com o passar das semanas ou meses, surge a fase mais delicada: o pedido de ajuda. A narrativa pode envolver uma emergência médica, uma passagem aérea, problemas alfandegários, um investimento supostamente lucrativo ou uma dificuldade temporária para acessar recursos financeiros.
Em muitos casos, o primeiro pedido envolve quantias menores, utilizadas para testar a disposição da vítima em colaborar. Depois, os valores aumentam gradativamente. Além do dinheiro, os criminosos também tentam obter documentos, senhas, códigos de autenticação e informações bancárias, que podem ser utilizados em fraudes adicionais.
De Simon Leviev aos golpes atuais
O caso mais conhecido internacionalmente é o de Simon Leviev, popularizado pelo documentário ‘O Golpista do Tinder’ (Netflix, 2022). Apresentando-se como herdeiro de uma fortuna ligada ao mercado de diamantes, ele conquistava a confiança de mulheres em aplicativos de relacionamento e alegava enfrentar problemas de segurança para solicitar empréstimos e transferências financeiras.
No Brasil, histórias de golpe do amor também têm viralizado com frequência. Há poucos meses, uma mulher de Colombo, no Paraná, ganhou repercussão nacional ao descobrir, na véspera do suposto casamento dela, que o relacionamento que mantinha havia sido construído sobre uma série de mentiras. Ao longo de sete meses, a idosa de 60 anos acreditou estar planejando uma vida ao lado do companheiro, que falava sobre a compra de imóveis, fazia projetos para o futuro do casal e chegou a organizar a cerimônia, com espaço reservado, buffet contratado e convites distribuídos aos familiares e amigos da vítima.
Segundo as investigações, a confiança construída durante o relacionamento foi usada para que o homem realizasse empréstimos, financiamentos e outras operações financeiras em nome da mulher. O prejuízo foi de quase R$ 300 mil, incluindo economias guardadas ao longo de anos de trabalho da idosa. O suspeito foi preso e a polícia apontou indícios de que ele teria aplicado golpes semelhantes contra outras mulheres em diferentes estados brasileiros.
A inteligência artificial elevou o nível do golpe
Se antes fotos roubadas eram suficientes para criar um perfil falso, hoje a inteligência artificial permite gerar rostos que não pertencem a ninguém. Ferramentas de IA são utilizadas para produzir imagens hiper-realistas, criar histórias convincentes e até manter conversas simultâneas por meio de sistemas automatizados. Há também registros de uso de vídeos manipulados, troca de rostos em chamadas de vídeo e áudios sintéticos capazes de imitar vozes humanas. Com isso, a sociedade fica diante de um desafio adicional. “Estamos entrando em uma era em que ver para crer deixou de ser um critério de segurança”, ressalta Denis Paes Barreto.
Esse cenário ajuda a entender por que algumas vítimas acreditam estar se relacionando com pessoas que sequer sabem de sua existência. Nas redes sociais, multiplicam-se relatos de indivíduos que pensavam conversar com celebridades de Hollywood. Em muitos casos, os golpistas utilizam fotos, vídeos e informações públicas disponíveis na internet para construir personagens convincentes e manter a fraude por meses.
Os sinais que merecem atenção
Mesmo com essas técnicas, é possível se proteger prestando atenção a comportamentos que ajudam a identificar um golpe:
- Declaração de amor ou exclusividade em pouco tempo;
- Resistência a encontros presenciais ou videochamadas espontâneas;
- Perfis com poucas fotos e histórico limitado de interações;
- Histórias muito “perfeitas” ou dramáticas;
- Insistência para migrar rapidamente para aplicativos de mensagens;
- Pedidos de sigilo sobre o relacionamento;
- Pedidos de dinheiro, documentos ou dados bancários.
De acordo com Raphael Mielle, diretor de Serviços e Segurança da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), todo golpe baseado em engenharia social busca, em última instância, “roubar dados pessoais ou induzir a vítima a realizar transferências financeiras”, garante. “Por isso, a atenção deve ser redobrada sempre que houver movimentação de dinheiro ou compartilhamento de informações sensíveis”, complementa.
Além dos cuidados no ambiente digital, vale conhecer os recursos de proteção oferecidos pelas instituições financeiras. No Itaú, por exemplo, é possível encontrar no Superapp a Área de Segurança, com informações, orientações e ferramentas que ajudam a proteger a conta de possíveis tentativas de fraude.
Como bancos e instituições atuam no combate às fraudes
Além das ações de conscientização realizadas por bancos e entidades do setor financeiro, existe um trabalho permanente de repressão aos crimes digitais. Um dos exemplos é o Projeto Tentáculos, criado para centralizar registros de fraudes bancárias.
Segundo a Febraban, a iniciativa reúne 71 instituições financeiras e, entre 2018 e 2025, contribuiu para a realização de 678 operações policiais, com 1.741 mandados de busca e apreensão cumpridos e 311 prisões.
A federação também participa de iniciativas como o programa Celular Seguro e da Aliança Nacional de Combate a Fraudes, que reúne ações de educação, prevenção, detecção e recuperação de ativos.
Quando há suspeita de golpe, a orientação é comunicar imediatamente o banco para possibilitar o bloqueio rápido de senhas, cartões e acessos digitais, além do registro de boletim de ocorrência.
Legislação
O avanço desse tipo de fraude também chegou ao debate legislativo. Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 5197/23, que prevê aumento da pena para casos de estelionato praticados mediante relação afetiva com a vítima.
Pela proposta, a punição poderá ser ampliada de um terço a dois terços quando o crime for cometido valendo-se do vínculo emocional estabelecido pelo autor da fraude. Aprovado nas comissões, o texto já está pronto para ser votado pelo plenário da Casa de Leis.
Como se proteger do golpe do amor
Antes de confiar, verifique:
- Faça videochamadas espontâneas em horários diferentes;
- Observe se a pessoa possui histórico nas redes sociais;
- Desconfie de perfis recém-criados ou com poucas interações.
Nunca compartilhe:
- Senhas;
- Códigos de autenticação;
- Dados completos de cartões;
- Fotos de documentos;
- Selfies segurando RG ou CNH;
- Informações sobre saldos, limites ou extratos.
Pesquise a identidade:
- Verifique se as fotos aparecem associadas a outros nomes;
- Procure referências cruzadas em diferentes plataformas.
Desconfie da combinação perigosa:
- Urgência + segredo + pedido de dinheiro costumam ser elementos recorrentes em golpes emocionais.
Se suspeitar de fraude:
- Interrompa imediatamente o contato;
- Bloqueie o perfil;
- Troque senhas de e-mail, redes sociais e aplicativos financeiros;
- Ative a autenticação em dois fatores;
- Comunique o banco pelos canais oficiais;
- Registre boletim de ocorrência.
Em situações de suspeita de fraude, agir rapidamente faz diferença. Além de entrar em contato com o banco, vale utilizar os recursos de proteção disponíveis no aplicativo. No Superapp Itaú, a Área de Segurança permite bloquear cartões, revisar acessos e configurar ferramentas como o Modo Protegido, que adiciona uma camada extra de segurança para as transações do dia a dia.
