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Proteção financeira para mães solo: por onde começar?

Seguro de vida, reserva de emergência, previdência privada e planejamento sucessório ajudam quem cuida da família sozinha a ter mais segurança.

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Imagem de uma mãe e um filho a caminho da escola
Imagem gerada por IA

Ser mãe solo é, muitas vezes, ocupar todos os papéis ao mesmo tempo. Você é quem leva à escola, quem cuida quando a febre chega de madrugada, quem paga as contas e quem planeja o mês seguinte.

Quando uma pessoa só sustenta a casa, cada decisão financeira carrega um peso a mais. Um arranjo mais comum do que parece: não há segundo salário para equilibrar, nem uma segunda renda para amortecer um imprevisto.

A servidora da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), Mariene Ramos é mestra em Políticas Públicas e Desenvolvimento pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e pesquisa como o mercado de trabalho brasileiro trata essas mulheres.

“Hoje, como pesquisadora, investigo como o mercado de trabalho brasileiro penaliza as 10,9 milhões de mulheres que assumem sozinhas a chefia de seus lares”, explica. “Em 2025, esse contingente é de 11,9 milhões”.

Seu interesse pelo tema vem de longe. “Minha pesquisa nasceu de uma inquietação que me acompanha desde a adolescência”, conta. “Minha mãe cuidava dos filhos de vizinhas para que elas pudessem trabalhar, e eu via como essa rede de apoio era precária e invisível”, lembra.

E a desigualdade que ela estuda apresenta o efeito direto no bolso. “A desigualdade financeira é concreta. Em 2022, metade das mães solo sobrevivia com até R$1.600 por mês, valor próximo ao salário-mínimo da época”, afirma.

Para Mariene, isso não é acaso. “Sem apoio para dividir as tarefas de cuidado, elas são empurradas para ocupações informais e flexíveis, porém desvalorizadas. É o que a literatura chama de conflito trabalho-cuidado, a necessidade de conciliar presença e provisão acaba limitando as escolhas no trabalho”.

Diante desse cenário, organizar a proteção financeira é um cuidado que passa longe do luxo. E existem ferramentas para diferentes momentos da vida, em que é possível começar pelo passo que cabe no orçamento de hoje.

O presente aperta antes de o futuro chegar

A realidade de muitas mães solteiras deixa pouco espaço para o planejamento financeiro de longo prazo.“Para essas mulheres, falar em previdência privada ou seguro é uma realidade distante, porque a urgência imediata é garantir o sustento do dia a dia”, diz Mariene.

Esse aperto do presente também se reflete nos números levantados pela pesquisadora. “Mesmo controlando fatores como escolaridade, idade, raça e região, as mães solo recebem 43,3% menos que pais com cônjuge”, afirma.

E ela faz uma distinção importante: “Existe uma penalidade pela maternidade que atinge todas as mães, mas que se aprofunda quando não há um cônjuge para dividir o cuidado. A monoparentalidade é um fator adicional de desvantagem, não apenas uma variação da penalidade materna”.

Ainda assim, dá para construir alguma segurança aos poucos, no seu ritmo, e costuma começar pelo passo mais simples: a reserva de emergência, uma quantia separada para imprevistos como a geladeira que para ou um período entre um trabalho e outro.

A recomendação comum é juntar de três a seis meses dos gastos essenciais, mas o caminho que cabe na vida real é começar pequeno e constante. Um valor fixo por mês, mesmo modesto, já coloca o hábito em movimento.

O futuro que poucas conseguem proteger

Se a reserva segura o presente, o longo prazo é onde a desigualdade pesa mais. “O impacto mais grave a longo prazo está na proteção social. Apenas 28,3% das mães solo contribuem para a previdência. Entre os pais com cônjuge, esse percentual é de 54,8%”, aponta Mariene.

A diferença, segundo ela, está nas próprias condições de trabalho. “Quando a renda é insuficiente e instável, o planejamento de longo prazo encontra limites impostos pelas condições de inserção no mercado de trabalho”, comenta.

É nesse vão que entram ferramentas como a previdência privada, que ajuda a construir uma renda futura, e o seguro de vida, que garante amparo a quem depende de você.

Para uma mãe solo, o seguro responde a uma pergunta que poucas gostam de fazer, mas que importa muito: se eu faltar, quem cuida da parte financeira dos meus filhos?

Nenhuma das duas precisa começar grande. A previdência privada, em especial, também serve ao planejamento sucessório, já que os valores podem ir direto aos beneficiários, sem passar pelo inventário.

Quando a raça aprofunda a conta

Esse cenário não atinge todas as mulheres da mesma forma. A pesquisa de Mariene coloca a raça no centro. “Esse recorte muda a conversa porque a raça é um marcador central. 61,5% das mães solo são pretas ou pardas, a maior proporção entre todos os arranjos familiares analisados”, conta.

Gênero e raça se somam num efeito que ela batizou. “A interseccionalidade entre gênero e raça cria o que chamo de piso de precariedade, um conjunto de desvantagens que se reforçam mutuamente”.

Esse piso, segundo ela, aparece com força no trabalho doméstico. “A probabilidade de uma mãe solo estar nesse setor é 22,8 pontos percentuais maior que a de um pai com cônjuge”, complementa.

E ali, conforme Mariene explica, “a informalidade é a regra, não a exceção. E é a informalidade que impede o acesso à previdência e ao seguro”. A saída, na sua leitura, não é só individual.

“Políticas públicas de formalização e ampliação da proteção social podem desempenhar um papel importante para ampliar o acesso à previdência e a outros mecanismos de proteção”, afirma a pesquisadora.

São elas que podem abrir, para muitas mães solo, a porta de entrada para mecanismos que hoje parecem distantes.

Proteger os filhos também é planejamento

Há uma camada da proteção financeira que vai além do dinheiro guardado e diz respeito a quem depende de você.

É o planejamento sucessório, o conjunto de decisões sobre como seus bens e responsabilidades serão cuidados no futuro, e que, para uma mãe solo, envolve também quem cuidaria dos filhos menores caso você não pudesse. É aqui que entram:

a guarda, que define quem é responsável pelo cuidado diário da criança (Código Civil, arts. 1.583 e 1.584);

e a tutela, que protege o filho menor quando os pais não podem exercer esse papel, zelando pela criança e por seus bens (Código Civil, arts. 1.728 e seguintes)).

Pensar nisso com antecedência permite indicar uma pessoa de confiança e deixar sua vontade registrada, em vez de entregar a decisão a terceiros depois.

Conhecer os apoios que já existem

Proteção financeira também é conhecer os direitos e auxílios disponíveis. Muitas mães solo recorrem a programas de transferência de renda, e a pesquisa de Mariene dá uma dimensão.

“Os auxílios são a rede de segurança que impede o agravamento da vulnerabilidade; 57,3% das mães solo dependem de benefícios sociais, uma proporção muito superior à dos demais arranjos familiares”, aponta.

Ainda assim, ela faz uma ressalva importante: “Auxílio não é planejamento”. Para a pesquisadora, sair da sobrevivência exige estrutura.

Lembrando aqui que muitas mães buscam pelo chamado “auxílio mãe solteira”, um benefício de R$1.200 voltado a mulheres que sustentam o lar sozinhas. Ele chegou a tramitar na Câmara dos Deputados, como o Projeto de Lei 2099/2020, mas não virou lei.

Mesmo que viesse a existir, seria apenas um apoio pontual, não uma estrutura para um plano de futuro. Nesse sentido, Mariene resume o que acredita ser um caminho ideal em três diferentes frentes:

“A primeira dimensão é a infraestrutura de cuidado, com creches em tempo integral perto de casa e do trabalho. A segunda é a qualificação profissional com recorte de gênero e raça, para tirá-las da segregação em serviços domésticos. A terceira é a proteção social, com o reconhecimento do tempo de cuidado como tempo de contribuição previdenciária”.

A urgência aumenta quando o cuidado se acumula, ela aponta. “Muitas mães solo também convivem com idosos no domicílio; 33,5% delas estão na chamada ‘geração sanduíche’, cuidando de filhos e de idosos simultaneamente”, afirma.

Para ela, é só quando esse peso deixa de ser individual que sobra fôlego para pensar no futuro. “Estamos diante do que a literatura denomina problema complexo, que exige ações articuladas em múltiplas frentes. Nenhuma política isolada será suficiente”.

Vale, então, conhecer os caminhos para garantir o que é de direito da criança:

Esse reconhecimento assegura à criança direitos como pensão alimentícia e participação na herança, como herdeira necessária (Código Civil) – dispositivos legais que abrem caminhos para dar sustentação ao futuro financeiro dos filhos.

Por onde começar quando tudo parece muito

Olhar para seguro, reserva, previdência e sucessão de uma vez só pode dar a sensação de que é tudo grande demais. Não precisa ser. Cada uma dessas ferramentas resolve um momento diferente da vida, e dá para avançar no seu ritmo.

No Itaú, há pontos de apoio para cada etapa dessa construção, com acesso pelo Superapp:

  • construir uma reserva de emergência é o primeiro movimento para atravessar imprevistos sem decisões forçadas pela urgência. Os Cofrinhos disponíveis no app permitem separar esse valor por metas, com liquidez e rendimento automático;
  • para proteger quem depende de você, as opções de seguro de vida garantem amparo financeiro aos beneficiários que você indicar, com coberturas que podem ir além do falecimento;
  • para olhar o longo prazo, os planos de previdência privada ajudam a construir uma renda futura no seu ritmo, com aportes que cabem no orçamento e regularidade ao longo do tempo.

Para Mariene, porém, o passo que mais transforma vem antes de qualquer produto financeiro. “O que faz diferença real é o acesso à informação e às redes de apoio. Saber que existem direitos, benefícios e programas a que se pode recorrer”, diz.

“Muitos dos direitos e benefícios que existem não chegam a quem precisa, simplesmente por falta de informação. Entender os próprios direitos, saber onde buscar ajuda, tudo isso já muda o jogo”, avalia a pesquisadora.

E ela deixa um recado para quem sente que carrega tudo sozinha: “Solo não deveria significar estar sozinha. O que você sente, o cansaço, a exaustão, a sensação de que tudo é grande demais, não é falta de força. É falta de estrutura. O problema não é você. Você já está fazendo muito. Busque informação, busque rede. Cada direito conhecido e acessado é um passo”.

Cuidar de uma família sozinha exige força, e organizar essas decisões é uma forma concreta de transformar essa força em tranquilidade.

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