O uso de canetas emagrecedoras já faz parte da realidade de 33% dos domicílios brasileiros, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva. Em paralelo, esse mercado movimentou cerca de R$ 10 bilhões em 2025 e pode alcançar R$ 50 bilhões até 2030, de acordo com projeções do Itaú BBA.
O avanço ocorre em um contexto mais amplo de aumento dos gastos com saúde. Dados do IPC Maps mostram que as famílias brasileiras desembolsaram R$ 238,9 bilhões com medicamentos em 2025, uma alta de 10,7% em relação ao ano anterior. Os números ajudam a dimensionar um fenômeno que ultrapassou o campo da saúde e passou a impactar diretamente o orçamento das famílias.
Diante disso, medicamentos como o Ozempic introduziram um novo tipo de despesa doméstica. Trata-se de um gasto significativo, recorrente e, na maioria das vezes, pouco flexível. Há uma expectativa de redução de preços no futuro com a quebra da patente da semaglutida, princípio da medicação, que abre espaço para a entrada de novos fabricantes e tende a ampliar a concorrência. Isso pode pressionar os valores para baixo ao longo do tempo, mas não ocorre de forma imediata, enquanto o impacto financeiro já se impõe no presente.
Para se ter uma ideia, uma única caneta de Ozempic pode custar entre R$ 800 e R$ 1.300. Quando o uso é contínuo, esse valor deixa de ser pontual e passa a disputar espaço com despesas essenciais, como alimentação, moradia e transporte.
Obesidade e diabetes
A expansão do uso desses medicamentos dialoga com mudanças no perfil de saúde da população. Dados do Ministério da Saúde mostram que a obesidade cresceu 118% no Brasil entre 2006 e 2024, enquanto o diabetes avançou 135% no mesmo período.
Esse cenário amplia a demanda por tratamentos de longo prazo, que exigem continuidade. O resultado aparece no cotidiano: mais famílias incorporando despesas com saúde que não podem ser interrompidas sem consequências.
Em vídeo publicado no YouTube, o médico Drauzio Varella explica que as canetas emagrecedoras são indicadas para pessoas com obesidade ou sobrepeso associado a outras doenças e atuam na redução do apetite, contribuindo para a perda de peso. “O remédio é como um pontapé inicial, mas o tratamento é bem mais complexo do que isso”, afirma.
O médico destaca que a obesidade é uma doença crônica e exige mudanças no estilo de vida, como alimentação adequada e prática de exercícios físicos. Ele também alerta que a escolha do medicamento deve ser individualizada e feita por um profissional, já que o uso sem orientação pode causar efeitos adversos e outros riscos à saúde.
Despesa fixa e pesada
Se, do ponto de vista clínico, o uso desses medicamentos exige continuidade, no orçamento essa característica aparece de outra forma. O que começa como parte de um tratamento de saúde passa a ocupar espaço fixo nas contas do mês.
Para o planejador financeiro Carlos Castro, um dos erros mais frequentes está na forma como esse tipo de gasto é tratado. “Se é um medicamento de uso contínuo, ele precisa entrar no orçamento como despesa fixa. E mais: com previsão de aumento, porque os reajustes costumam ficar acima da inflação”, explica.
Ele acrescenta que não existe um percentual ideal para gastos com saúde, mas há sinais de alerta. “Quando o comprometimento ultrapassa 25% da renda, começa a pressionar bastante o orçamento. Entre 10% e 25%, ainda é possível manter alguma estabilidade, dependendo da renda”, salienta.
Reorganização financeira em busca de saúde
Natural do Maranhão, o servidor público Alessandro Rodrigues, de 42 anos, passou a usar a caneta emagrecedora após orientação médica, diante de alterações nos exames e histórico de sobrepeso. O impacto financeiro foi imediato. “Era praticamente o valor de uma conta fixa nova dentro de casa. Eu tive que reorganizar tudo”, relata.
A solução veio com ajustes no orçamento. Alessandro reduziu despesas variáveis e passou a tratar o medicamento como prioridade. “Encaro como se fosse alimentação. Não é algo que dá para cortar, então precisei reorganizar o restante. Mas espero conseguir parar de tomar em breve, após emagrecer e normalizar meus exames”, diz.
Como organizar o orçamento diante de um medicamento caro?
O primeiro passo é reconhecer a natureza do gasto. Medicamentos de uso contínuo devem ser classificados como despesas essenciais e recorrentes. A partir disso, entra o planejamento. Carlos Castro recomenda projetar esse custo no tempo. “O ideal é olhar pelo menos 12 meses à frente e considerar uma margem de aumento entre 5% e 15%”, orienta.
Outras estratégias podem ajudar a reduzir o impacto:
- Buscar alternativas mais acessíveis, quando disponíveis;
- Utilizar programas de desconto em farmácias;
- Avaliar possibilidades dentro do Sistema Único de Saúde (SUS);
- Acompanhar reajustes e variações de preço.
Mesmo com planejamento, o valor pode pesar no curto prazo. Nesses casos, dividir a compra pode ser uma alternativa, especialmente quando não há cobrança de juros. “Se for um parcelamento sem juros, pode ajudar no fluxo de caixa. Mas é preciso acompanhar para não perder o controle”, enfatiza Castro.
No entanto, o uso de crédito exige cautela. “Juros de cartão ou cheque especial são muito elevados. Em situação emergencial, pode até ser usado, mas com planejamento. Caso contrário, vira uma bola de neve”, frisa o planejador financeiro.
O que muda com a queda da patente do Ozempic?
A queda da patente da semaglutida tende a ampliar a oferta de medicamentos e, ao longo do tempo, pressionar os preços para baixo.
O processo, no entanto, não ocorre de forma imediata. A chegada de novas opções depende de aprovação regulatória e de condições de mercado.
Desafios da longevidade
O aumento da longevidade impõe um novo desafio às famílias. “Estamos vivendo mais, e isso traz um custo maior com saúde ao longo da vida”, observa Castro.
Pensando nisso, organizar as finanças passa a ser parte do cuidado com a própria saúde. “Saúde financeira e saúde física caminham juntas. Uma sustenta a outra”, finaliza o especialista.
Como o Itaú pode ajudar na organização financeira?
- Cofrinhos: Permitem separar recursos por objetivos, inclusive despesas de saúde. É possível criar metas, guardar valores a partir de R$ 1 e acompanhar o rendimento, atrelado a 100% do CDI.
- Controle de Gastos: Organiza automaticamente as despesas por categoria, como farmácia e alimentação, além de permitir definição de limites e acompanhamento em tempo real.
Dicas para lidar com gastos com medicamentos
- Tratar medicamentos contínuos como despesas fixas;
- Projetar os custos com antecedência;
- Criar uma reserva específica para saúde;
- Utilizar ferramentas para acompanhar despesas;
- Evitar crédito com juros elevados;
- Buscar alternativas mais acessíveis;
- Revisar o orçamento com frequência.
