Guardar dinheiro costuma ser tratado como uma meta distante. Algo para quando o salário aumentar, as contas diminuírem ou a vida finalmente entrar nos trilhos. Enquanto esse momento ideal não chega, muitas pessoas seguem adiando o hábito de poupar, acreditando que ele depende mais da renda do que das escolhas feitas no dia a dia.
Mas será que guardar dinheiro é mesmo um privilégio de quem ganha mais? Ou seria uma prática que pode começar antes mesmo de existir uma sobra significativa no orçamento?
Essa é uma das reflexões centrais do segundo episódio da série sobre bem-estar financeiro produzida pelo Itaú em parceria com a Folha de S.Paulo. Em conversa com a jornalista Adriana Couto, João Araújo, diretor de Estratégia e Ciclo de Vida do Cliente do Itaú Unibanco, discute como a relação dos brasileiros com o dinheiro está mudando e por que poupar deixou de ser apenas uma questão matemática para se tornar uma prática ligada a escolhas, objetivos e mais tranquilidade financeira.
O brasileiro está mudando a relação com o dinheiro
Durante décadas, a relação dos brasileiros com o dinheiro foi marcada pela urgência. O foco era pagar as contas do mês, lidar com imprevistos e tentar fazer o orçamento chegar até o próximo salário. Nesse cenário, pensar em uma reserva financeira ou em planos de longo prazo parecia algo distante, quase incompatível com a vida real.
Mas alguns sinais mostram que essa lógica começa a mudar. Segundo o estudo "Consciência e prosperidade: a nova relação do brasileiro com o dinheiro", realizado pelo Itaú em parceria com a Consumoteca, 80% dos brasileiros querem aprender a administrar melhor seus recursos e 75% preferem a segurança a correr riscos para ganhar mais dinheiro. A mudança é menos sobre enriquecer rapidamente e mais sobre conquistar autonomia, previsibilidade e uma relação menos angustiante com as finanças.
A pesquisa aponta uma transformação importante na forma como as pessoas entendem prosperidade. Se antes o sucesso financeiro costumava ser associado apenas ao aumento da renda ou ao acúmulo de patrimônio, hoje cresce a percepção de que bem-estar também passa pela capacidade de fazer escolhas com mais tranquilidade, criar margem para lidar com imprevistos e ter liberdade para planejar os próximos passos.
Para João Araújo, esse movimento ajuda a explicar por que guardar dinheiro deixou de ser encarado como uma meta quase inalcançável.
"Essa lógica do hábito, essa ideia de que guardar dinheiro não significa fazer um grande investimento, mas ter uma disciplina quase diária. É, no cotidiano, guardar o que for possível, poupar o que der. Essa é uma diferença enorme que a gente vem observando de forma crescente nos últimos anos", afirma.
Tal mudança de mentalidade não significa que os desafios financeiros desapareceram. Pelo contrário. Em um contexto em que as despesas seguem pressionando o orçamento das famílias, mais pessoas parecem dispostas a construir uma relação gradual com o dinheiro, baseada em objetivos compatíveis com a própria realidade.
Por que ainda é tão difícil guardar dinheiro?
Se a ideia de guardar dinheiro parece simples na teoria, na prática ela costuma esbarrar em crenças que muita gente carrega há anos. Talvez a mais comum seja a de que poupar é algo reservado para quem tem uma renda mais alta ou para quem já conseguiu colocar toda a vida financeira em ordem. Antes disso, o pensamento costuma ser sempre o mesmo: "Quando sobrar, eu começo".
O problema é que esse momento ideal raramente chega. Afinal, sempre existe uma conta inesperada, um gasto que surge de última hora ou um novo compromisso no orçamento. E, quando guardar dinheiro é tratado como algo que depende exclusivamente das sobras, ele acaba ficando para depois.
Há também um componente emocional nessa relação. Durante muito tempo, organizar as finanças foi associado a restrições e renúncias, como se poupar significasse abrir mão do presente em nome de um futuro distante. Não por acaso, tanta gente encara esse movimento como um sacrifício.
No entanto, para João Araújo, construir uma reserva financeira funciona de maneira parecida com qualquer outro comportamento da vida. "O importante não é o número, é o hábito. É criar um jeitinho prático de guardar e acompanhar essa evolução", afirma.
Quando o dinheiro deixa de ser ansiedade e vira projeto
Quando existe uma meta concreta, guardar dinheiro deixa de ser um exercício abstrato. O esforço passa a ter um destino. Segundo João Araújo, durante muito tempo o brasileiro se organizou financeiramente apenas para sobreviver ao mês seguinte. Agora, começa a surgir uma mudança importante: cada vez mais pessoas estão aprendendo a estabelecer metas de curto, médio e longo prazos.
Pode ser uma reserva para lidar com imprevistos, um curso que abra novas oportunidades profissionais ou a viagem que ficou em espera por muito tempo. O tamanho do sonho muda de pessoa para pessoa, mas o mecanismo é parecido. Quando existe um objetivo claro, guardar dinheiro deixa de ser ansiedade e vira projeto.
Foi justamente dessa percepção que nasceram os Cofrinhos do Itaú, uma funcionalidade que permite separar recursos para metas específicas, como uma viagem, a reserva de emergência ou a compra de um carro.
"Nós víamos nas pessoas essa necessidade do hábito, de pensar em planos e guardar o pouco que dá, obviamente dependendo da capacidade financeira de cada um. Tem sido uma solução muito bem recebida pelos clientes", afirma.
Antes de guardar dinheiro, é preciso saber para onde ele vai
Mas, segundo o executivo, criar uma reserva financeira passa por um passo anterior, que é entender para onde o dinheiro está indo.
Por isso, o banco lançou praticamente ao mesmo tempo a ferramenta Controle de Gastos, que organiza as despesas por categorias e ajuda os clientes a terem uma visão mais clara do próprio orçamento." É uma forma mais fácil de gerar, pela primeira vez, uma intimidade com os gastos", explica.
E a experiência mostrou que essa percepção nem sempre é tão intuitiva quanto parece. "Quando lançamos essa solução, fazíamos até uma brincadeira com os clientes. Perguntávamos onde eles achavam que tinham gastado mais no último mês: em transporte, restaurante ou supermercado. E mais de 50% respondiam errado", conta.
A constatação revela algo importante. Muitas vezes, antes de pensar em guardar dinheiro, é preciso conhecer melhor os próprios hábitos. Afinal, fica mais fácil criar espaço para novos projetos quando se entende como o orçamento é distribuído no dia a dia.
O tamanho importa menos do que a constância
Uma das maiores mudanças na forma de encarar as finanças é entender que guardar dinheiro não depende de grandes quantias, mas da construção de uma rotina. E, para João Araújo, esse processo pode ser mais simples do que parece.
Em vez de esperar pelo momento ideal ou por uma sobra significativa no orçamento, a recomendação é começar pequeno e criar regularidade.
Mais do que o valor, o que faz diferença é a repetição. Poupar R$ 50 todos os meses pode ser mais eficiente para construir esse comportamento do que esperar pela oportunidade de guardar uma quantia maior que talvez nunca venha.
"Se você nunca conseguiu guardar dinheiro, começa do jeito mais simples possível: com um valor pequeno, automático e, principalmente, separado do gasto do dia a dia. Porque, quando esse dinheiro fica misturado, ele desaparece sem a gente perceber", diz.
Um modo de transformar essa intenção em algo mais concreto é separar o dinheiro por objetivos. No Superapp Itaú, os Cofrinhos permitem acompanhar a evolução de cada meta de maneira visual.
Algumas atitudes simples podem ajudar a transformar a intenção em prática:
- Começar pequeno, sem esperar pelo momento ideal;
- Definir objetivos específicos, como uma viagem, um curso ou a reserva de emergência;
- Separar o dinheiro das despesas do dia a dia;
- Automatizar os aportes sempre que possível;
- Acompanhar a evolução das metas, já que visualizar o progresso costuma ser um incentivo extra para continuar.
Segundo João Araújo, a proposta é substituir a pressão de "guardar muito" pela constância de "guardar sempre que der". Porque poupar, hoje, vai além de acumular dinheiro. Significa criar margem para fazer escolhas e conquistar um pouco mais de tranquilidade em relação ao futuro.
