Você já parou para pensar no que realmente influencia suas decisões de compra? Na série “Por que a gente compra?”, o Feito.Itaú investiga como emoções, tendências, tecnologia e formas de pagamento moldam nossos hábitos de consumo. Da compra por impulso ao endividamento, passando pela busca por qualidade de vida, cada reportagem traz uma nova perspectiva sobre nossas escolhas e convida você a refletir sobre o que significa consumir com consciência e viver bem financeiramente.
O dinheiro pode entregar prazer em poucos segundos: uma compra desejada, um jantar especial, uma viagem dos sonhos. A sensação de conforto e bem-estar, no entanto, pode chegar ao fim com a chegada da fatura no mês seguinte. Entre a vontade de aproveitar o presente e a necessidade de construir segurança para o futuro, os brasileiros vivem uma relação ambígua com as próprias finanças.
Pesquisa apresentada no livro ‘Brasil no Espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros’, do cientista político, professor e pesquisador Felipe Nunes, revela que oito em cada dez brasileiros concordam que dinheiro é feito para gastar, enquanto 57% estão insatisfeitos com a própria vida financeira. Os números expõem uma contradição: gastar é visto como parte natural da vida financeira, mas isso não significa satisfação com a maneira como os recursos são administrados.
“Gastar em quê e por quê? Quem sabe responder está usando o dinheiro. Quem não sabe está sendo usado por ele”, afirma Celso Sant’Ana, psicólogo financeiro, especialista em Psicologia Comportamental e mestre em Controladoria e Finanças.
O que existe por trás de uma compra
Comprar oferece uma recompensa imediata e previsível. Diferentemente de decisões ligadas à carreira, aos relacionamentos ou à saúde, que dependem de tempo e resultados incertos, o consumo tem começo, meio e fim bem definidos: desejar, escolher, pagar e receber.
A expectativa tende a ser mais intensa do que a satisfação depois do consumo. Isso não torna o ato de consumir um problema. O ponto está no que se busca com ele: atender a uma necessidade, melhorar a qualidade de vida ou aliviar frustração, cansaço, solidão e até o desejo de pertencimento. Mais do que o valor desembolsado, vale observar o que aquela decisão pretende resolver.
Do gasto à segurança
Para a artesã Lucélia Oliveira, de 37 anos, a frase precisa de um complemento: “Dinheiro é para gastar, mas com segurança e dentro das nossas possibilidades”. A amapaense produz e vende brincos, colares e pulseiras e chegou a acumular dívidas e recorrer ao cheque especial, com juros elevados, em um período em que acreditava que gastar era uma forma de aproveitar a vida.
Hoje, a empreendedora procura manter os gastos necessários para viver sem ultrapassar os limites do próprio bolso. O dinheiro também representa segurança, embora a relação ainda seja marcada por ansiedade e questões emocionais.
“Eu achava que gastar era aproveitar a vida. Só que, depois, a vida continuava e as dívidas também. Hoje entendo que não adianta ter um momento de prazer se depois fico angustiada olhando para a conta e me desdobrando para pagá-la”, diz.
A comparação também pesa
As redes sociais ampliaram o grupo de referência dos indivíduos. Em vez de se comparar apenas com pessoas próximas, é possível acompanhar diariamente viagens, compras, conquistas e estilos de vida de milhares de pessoas. Sant’Ana resume o efeito como a comparação entre “o dia médio de qualquer pessoa contra o melhor dia de todo mundo”.
Diante disso, o consumo também pode ganhar uma função de imagem. A aquisição deixa de responder a uma necessidade ou a um desejo pessoal e passa a carregar a expectativa de mostrar aos outros quem se é ou como se gostaria de viver.
Para distinguir uma coisa da outra, o psicólogo propõe duas perguntas: “Eu compraria isso se ninguém pudesse ver?” e “Isso resolve uma necessidade minha ou responde à comparação com alguém?”. A ideia não é transformar o consumo em vilão, mas entender o motivo por trás de cada escolha. Afinal, gastar para viver melhor tem um significado diferente de gastar para sustentar uma imagem.
O prazer acaba, a conta fica
Sentir prazer ao consumir não impede a insatisfação financeira. “O dinheiro sai agora; a fatura, as parcelas e a falta de uma reserva aparecem depois. Além disso, a adaptação ao que foi comprado é rápida. O que antes parecia suficiente vira referência, e novas aquisições podem ser necessárias para produzir a mesma sensação de recompensa”, alerta Sant’Ana.
Por isso, antes de cortar gastos, o especialista recomenda observar o comportamento. Durante duas semanas, registrar a emoção associada a cada despesa não essencial pode revelar gatilhos. A partir daí, entram estratégias como reservar uma quantia para gastos sem culpa, esperar 48 horas antes de compras acima de determinado valor e buscar alternativas não financeiras para emoções recorrentes.
“Planejar não significa eliminar o presente, e sim dar destino ao dinheiro que chega. Dinheiro é feito para gastar, inclusive com o seu eu de daqui a dez anos. Ele também é uma pessoa, e vai precisar comer”, finaliza o psicólogo financeiro.
Como equilibrar consumo e futuro
Dê nome ao dinheiro
Defina o que uma reserva permitirá fazer, em vez de apenas estabelecer a meta de guardar.
Automatize uma parte
Transferir um valor fixo no dia do recebimento reduz a dependência de força de vontade.
Reserve dinheiro para aproveitar
Uma quantia destinada ao lazer permite consumir sem transformar todo gasto em culpa.
Observe os gatilhos
Antes de uma compra não essencial, identifique o que está sentindo e se o gasto responde a uma necessidade ou a uma emoção.
Adie decisões maiores
Dar 48 horas entre o desejo e a compra cria espaço para avaliar se a vontade permanece.
