No começo da trajetória profissional, a publicitária Fernanda Almeida, de 33 anos, conviveu com uma sensação incômoda todo início de mês. O salário caía na conta, mas parte dele já tinha destino certo: parcelas espalhadas em diferentes compras no cartão de crédito. Um eletrodoméstico aqui, uma roupa ali, algum gasto inesperado acolá. Nada que parecesse preocupante isoladamente. No entanto, o acúmulo assustava um pouco.
Ela, que nasceu em Boa Vista, Roraima, mas mora em São Luís, no Maranhão, continua endividada. A diferença é que a principal conta mensal tem outro significado: o financiamento do apartamento que comprou para realizar o sonho da casa própria. "Agora é uma dívida muito maior do que tinha anos atrás, mas ela não me tira o sono. Cada parcela me aproxima do meu imóvel. Ainda gostaria de amortizar mais do que consigo, mas sei que, no fim, o apartamento será meu", afirma.
Em um país onde o crédito faz parte da rotina financeira, milhões de pessoas convivem com algum tipo de dívida. Em maio deste ano, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas. O dado representa o maior índice da série histórica.
No mesmo período, mais de 75 milhões de pessoas estavam inadimplentes (ou seja, com contas em atraso), de acordo com levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil.
Antes de avaliar o valor, saiba a finalidade
Apesar de aparecerem sob o mesmo nome, as dívidas têm naturezas e impactos diferentes. Parte delas está ligada à realização de projetos que dificilmente seriam possíveis apenas com a renda disponível no momento, como a compra de um imóvel, a expansão de um negócio ou investimentos em qualificação profissional. Outras estão associadas ao consumo cotidiano, como compras parceladas no cartão de crédito. Há, ainda, despesas fixas para a manutenção de uma casa, como água, energia elétrica, gás, internet e condomínio.
A ideia de “dívida boa” ajuda a diferenciar essas situações, mas pode simplificar demais um tema que depende de contexto. Em muitos casos, o que define se uma dívida faz sentido é o que ela possibilita construir ao longo do tempo.
Segundo o planejador financeiro, arquiteto de patrimônio e membro da Comissão de Conscientização Financeira da Planejar, Ivan Vianna, o essencial não é o valor da dívida, mas sua função dentro do orçamento. “No lugar de conta boa e conta ruim, prefiro usar uma distinção mais precisa: dívida estruturante e dívida consumidora. A primeira fortalece o patrimônio ou a capacidade de geração de renda ao longo do tempo, enquanto a segunda apenas antecipa consumo”, explica.
Desta forma, um financiamento imobiliário pode representar formação de patrimônio. Um empréstimo voltado a um negócio pode gerar aumento de renda. O mesmo vale para investimentos em educação. “O denominador comum dessas situações é a criação de um ativo ou de uma capacidade. O custo do crédito precisa ser compatível com o retorno esperado desse recurso”, ressalta o especialista.
Sinais de que a dívida saiu do controle
Nenhuma modalidade de crédito é problemática por definição. Cartão de crédito, empréstimos e financiamentos podem funcionar bem quando fazem parte de um planejamento. O problema aparece quando deixam de estar conectados a objetivos ou passam a sustentar um padrão de consumo incompatível com a renda familiar.
Levantamento do Instituto Datafolha mostra que dois em cada três brasileiros dizem ter dívidas financeiras, enquanto 25% afirmam usar o crédito rotativo do cartão com alguma frequência. Essa modalidade, acionada quando a fatura não é paga integralmente, pode transformar rapidamente uma dívida controlável em um problema difícil de administrar.
Também merecem atenção situações em que parcelas se acumulam ao longo do tempo, refinanciamentos se tornam recorrentes ou novas linhas de crédito passam a ser usadas para pagar dívidas anteriores. A Peic aponta que o cartão de crédito segue como a principal modalidade de dívida no país, citado por 84,6% das famílias endividadas.
Ao longo de quase três décadas de atuação, Ivan Vianna observa padrões recorrentes em situações de maior risco financeiro. “Taxas de juros elevadas, ausência de finalidade clara, comprometimento excessivo da renda e desconhecimento do custo real aparecem com frequência nesses casos”, garante o especialista.
O que analisar antes de assumir uma dívida
A decisão de assumir uma dívida passa por alguns critérios que ajudam a enxergar melhor o impacto ao longo do tempo. O primeiro é a capacidade de pagamento. A parcela precisa caber no orçamento sem comprometer despesas essenciais ou a reserva de emergência. Em financiamentos imobiliários, por exemplo, uma referência comum é que o comprometimento fique entre 25% e 30% da renda líquida mensal.
É preciso avaliar, ainda, o custo efetivo total, que reúne juros, seguros, tarifas, IOF e outros encargos. É esse valor que mostra o custo real da operação. Também importa o prazo e o alinhamento com o projeto de vida. Compromissos de longo prazo atravessam mudanças importantes na jornada pessoal e profissional.
A qualidade do ativo adquirido também deve ser considerada. Em imóveis, entram fatores como localização e liquidez. Em negócios, entram projeções de retorno e cenário de mercado. Por fim, vale entender o comportamento da dívida em situações adversas, como queda de renda ou aumento de juros. Essa simulação ajuda a identificar a sustentabilidade do compromisso.
No caso de empréstimos para empresas, há ainda o ciclo de caixa: o prazo de pagamento da dívida precisa acompanhar o prazo de recebimento das receitas. Quando isso não acontece, o risco de desequilíbrio aumenta. “Mais do que o valor da dívida, o que determina o impacto é a capacidade de pagamento de quem a assume e o papel que ela desempenha dentro do orçamento”, resume Vianna.
Dicas para organizar melhor as decisões de crédito
Entenda a finalidade
Toda dívida deve ter um motivo. Quanto mais definido for o objetivo, mais fácil avaliar se ela faz sentido.
Olhe além da parcela
O valor mensal é importante, mas o custo total da operação é o que realmente mostra quanto será pago ao final.
Considere sua capacidade de pagamento
A dívida deve caber no orçamento sem comprometer despesas essenciais ou a reserva para emergências.
Avalie o que ela está construindo
O crédito ajudará a gerar patrimônio, renda ou desenvolvimento profissional? Ou apenas antecipará um consumo momentâneo?
Faça contas para cenários difíceis
Se a renda diminuir temporariamente, as parcelas continuarão sustentáveis?
Evite transformar crédito em renda extra
Cartão, empréstimos e financiamentos são ferramentas financeiras. Quando passam a financiar despesas recorrentes do dia a dia, o risco aumenta.
E quando a dívida já virou um problema?
Se a dívida deixou de fazer sentido dentro do orçamento, vale buscar alternativas antes que ela cresça ainda mais. Rever os gastos, reorganizar as contas e negociar melhores condições de pagamento podem ajudar a recuperar o equilíbrio financeiro.
Em alguns casos, soluções como a renegociação de dívidas permitem substituir débitos mais caros por condições mais adequadas à realidade do momento, facilitando a retomada do controle das finanças. Afinal, uma boa decisão financeira nem sempre é evitar o crédito, mas saber como reorganizar a vida quando o cenário muda.
