Você já parou para pensar no que realmente influencia suas decisões de compra? Na série “Por que a gente compra?”, o Feito.Itaú investiga como emoções, tendências, tecnologia e formas de pagamento moldam nossos hábitos de consumo. Da compra por impulso ao endividamento, passando pela busca por qualidade de vida, cada reportagem traz uma nova perspectiva sobre nossas escolhas e convida você a refletir sobre o que significa consumir com consciência e viver bem financeiramente.
As finanças fazem parte da rotina, e as preocupações com dinheiro podem influenciar o sono, o apetite e a disposição. Para o motorista de aplicativo Miguel Palheta, de 48 anos, pai de dois filhos, os períodos de maior aperto financeiro exigem mais atenção ao orçamento e também afetam o descanso.
A cada mês, ele procura uma maneira de fazer o dinheiro render para pagar os boletos da família. “A gente fica pensando nas contas e isso acaba mexendo com tudo. Eu já vi o sol raiar de tanto pensar na minha situação financeira”, conta o autônomo.
A experiência de Miguel ajuda a mostrar uma preocupação presente na vida de muitas famílias. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Foi o sexto recorde consecutivo.
O dado não significa que oito em cada dez famílias estejam sem conseguir pagar as contas. Endividamento inclui financiamentos, empréstimos e compras parceladas, mesmo com as prestações em dia. A inadimplência começa com o atraso no pagamento. Em julho, 29,8% das famílias estavam nessa situação.
O dinheiro também faz parte do bem-estar
Um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), realizado em parceria com o Datafolha, mostra como as finanças podem influenciar o bem-estar. Em 2025, 47% dos brasileiros apresentaram nível alto de estresse financeiro.
Para 37% dos entrevistados, a preocupação com a vida financeira atrapalhava o sono. Questões relacionadas ao dinheiro eram motivo de discórdia dentro de casa para 29%. Quase metade, 49%, dizia trabalhar em excesso para conseguir pagar as contas.
Mesmo com as parcelas em dia, os compromissos financeiros podem ocupar bastante espaço nos pensamentos. A sensação de que sobra pouco no orçamento ou de que cada gasto precisa ser calculado também merece atenção.
A psicóloga, administradora e especialista em finanças e gestão empresarial Paula Cerqueira explica que a relação com o dinheiro é atravessada pela história de cada indivíduo. Crenças, valores, experiências familiares e vivências anteriores influenciam a maneira como alguém lida com ganhar, gastar, poupar ou dever. “É importante observar o significado que aquela situação assume para a pessoa, os recursos que ela possui para enfrentá-la e o impacto que passa a produzir em diferentes áreas da vida”, afirma.
A preocupação pode aparecer na revisão frequente dos cálculos e na tentativa de prever como chegar ao fim do mês. Também pode vir acompanhada de culpa por decisões financeiras anteriores ou de receio de conversar sobre o assunto com pessoas próximas.
Em alguns momentos, o contato com as contas acaba ficando para depois. Faturas aguardam para ser abertas, o aplicativo do banco é evitado e ligações de cobrança não são atendidas. Esse adiamento pode aliviar o desconforto por um tempo, mas os compromissos continuam. Retomar o acompanhamento aos poucos ajuda a entender a situação e avaliar as alternativas.
Cuidar das finanças e da saúde mental são caminhos que se encontram
A relação entre finanças e saúde mental pode acontecer nos dois sentidos. Uma dívida pode trazer ansiedade e dificultar a organização. Ao mesmo tempo, dificuldades de saúde mental podem afetar concentração, planejamento, tomada de decisão, produtividade e controle de impulsos, com consequências para a vida financeira.
Quem passa por essas dificuldades pode encontrar obstáculos no trabalho, precisar de um afastamento, perder renda ou ter despesas maiores. Essas mudanças no orçamento podem exigir ajustes e acrescentar preocupações.
A dificuldade para pagar as contas também pode levar ao adiamento de decisões, tornando a organização mais difícil. Compreender essa dinâmica ajuda a identificar o tipo de apoio necessário em cada momento. “Nem sempre é possível estabelecer uma relação simples de causa e efeito ou identificar onde o ciclo começou”, explica Paula, coautora do livro DNA Financeiro.
Compreender as escolhas ajuda a seguir em frente
Reconhecer uma escolha que trouxe consequências negativas pode ajudar a pensar em uma mudança de rumo. Para isso, vale olhar para o que aconteceu sem transformar a revisão em autocobrança constante.
Há uma diferença entre perguntar “o que posso fazer agora?” e permanecer preso ao “como deixei isso acontecer?”. A vergonha também pode tornar a conversa sobre dinheiro mais difícil, especialmente quando a dívida é vista como um fracasso pessoal. Compartilhar a situação com alguém de confiança pode abrir espaço para receber apoio e pensar em alternativas.
Vale prestar atenção quando a preocupação financeira deixa de ser pontual e passa a ocupar boa parte do dia ou interfere no sono, na concentração, no humor, no trabalho ou nos relacionamentos. Ansiedade intensa, isolamento, sentimentos frequentes de culpa ou vergonha e dificuldade persistente para tomar decisões também podem indicar a necessidade de buscar ajuda.
Esse apoio pode fazer parte do cuidado desde cedo, sem a necessidade de esperar um diagnóstico ou que o sofrimento se torne incapacitante. A psicoterapia pode ajudar a compreender os aspectos emocionais e comportamentais da relação com o dinheiro. A orientação financeira auxilia na organização das dívidas, prioridades e estratégias. Esses cuidados podem se complementar.
Conhecer as dívidas é um primeiro passo
Quando há muitas contas para organizar, a recomendação de “colocar tudo no papel” pode parecer difícil de executar. Paula sugere começar por algo mais simples: conhecer a situação antes de tentar resolvê-la por completo.
Quanto é devido? Para quem? Em quantas parcelas? Qual o prazo? Quais são as taxas de juros? Quanto da renda está comprometida? Não é preciso responder a tudo de uma vez. O objetivo inicial é reunir informações que ajudem a decidir os próximos passos.
Com os números reunidos, fica mais fácil estabelecer prioridades considerando a renda e as despesas necessárias para manter a vida. Para que o plano seja sustentável, o valor de um acordo precisa caber no orçamento.
A forma de acompanhar o plano também importa. Definir horários para revisar o orçamento permite acompanhar a situação sem precisar conferir as contas a todo momento, reservando espaço para outras atividades.
Reorganizar a vida financeira pode incluir os gastos que trazem prazer, dentro das possibilidades do orçamento. Segundo Cerqueira, as restrições excessivas podem ser difíceis de sustentar. “Reorganizar as finanças não precisa significar eliminar todo gasto que proporcione prazer ou viver exclusivamente para pagar dívidas”, ressalta.
Uma relação mais saudável com o dinheiro envolve compreender melhor as próprias escolhas, reconhecer padrões de comportamento e construir um planejamento que possa ser revisto conforme a vida muda. Esse cuidado pode começar antes de a dívida ser quitada, com um passo possível de cada vez. Um período de aperto é uma situação a administrar, e não uma definição de quem a pessoa é.
5 passos para começar a reorganizar as finanças
1. Conheça suas dívidas
Reúna valores, parcelas, prazos, credores e taxas de juros. Ter essas informações à mão ajuda a entender a situação e escolher por onde começar.
2. Monte um plano que caiba na renda
Considere primeiro as despesas necessárias para manter a vida e, depois, quanto pode ser destinado às dívidas. Antes de fechar um acordo, confira se as parcelas cabem no orçamento.
3. Faça uma coisa de cada vez
Divida a organização em etapas. Você pode começar identificando as dívidas e seus valores e deixar a avaliação das alternativas para um segundo momento.
4. Reserve espaço para o bem-estar[
Aprender com as escolhas anteriores pode ajudar a mudar de direção. Procure estabelecer metas possíveis e incluir, dentro do orçamento, gastos que tragam prazer e ajudem a sustentar o planejamento.
5. Conte com apoio quando precisar
Observe como as preocupações financeiras afetam seu sono, humor, concentração e relacionamentos. Se essas mudanças persistirem ou dificultarem a rotina, o apoio psicológico pode ajudar.
