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Reforma tributária: o que as empresas já podem fazer para se preparar

Transição até 2033 exige revisão de processos, contratos, fluxo de caixa e sistemas internos  

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A reforma tributária ainda está em fase de implementação gradual, mas, para muitas empresas, a preparação já começou. A mudança no modelo de cobrança de impostos sobre o consumo promete simplificar o sistema no longo prazo, ao mesmo tempo em que inaugura um período de transição que exigirá adaptações fiscais, tecnológicas, financeiras e operacionais. 

Embora o novo regime só entre plenamente em vigor em 2033, a transição começa já em 2026. Nesse período, os negócios passarão a conviver com regras antigas e novas ao mesmo tempo, incluindo a adaptação gradual de sistemas e a inclusão das novas informações nas notas fiscais. Para testar e validar os novos sistemas de apuração e de emissão de notas fiscais eletrônicas, CBS e IBS serão aplicados com uma alíquota experimental de 1%, preparando empresas e administrações tributárias para a implementação do novo modelo. 

“A transição vai durar vários anos, e empreendimentos que entrarem nesse processo sem um diagnóstico adequado correm o risco de operar no escuro”, alerta o contador e assessor financeiro Lucas Quaresma, em entrevista exclusiva ao Feito.Itaú. “Além disso, o custo da inércia tende a ser maior do que o custo de um planejamento tributário adequado”, acrescenta o especialista. 

Atualmente, o sistema brasileiro reúne tributos como ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI. Com a reforma, parte deles será substituída pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), além da criação do Imposto Seletivo (IS), aplicado sobre produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. 

Nesta reportagem, saiba como colocar a reforma tributária no radar da empresa e quais pontos já começam a exigir atenção durante a transição para o novo sistema. 

Passo 1 - Entender que a reforma não afeta apenas o setor fiscal 

Apesar de a discussão normalmente começar pela tributação, os impactos devem alcançar praticamente toda a estrutura dos negócios. O setor fiscal tende a ser um dos primeiros a sentir os efeitos, principalmente pela mudança na forma de apuração e compensação dos tributos. Além da criação da CBS e do IBS, a reforma prevê a instituição do Imposto Seletivo (IS), que passará a abranger parte do escopo hoje associado ao IPI. O IPI, por sua vez, não será extinto, permanecendo com aplicação restrita e alíquotas reduzidas para operações de empresas que concorram com a Zona Franca de Manaus., por exemplo.               

Ao mesmo tempo, os empreendimentos começam a voltar atenção para possíveis impactos no fluxo de caixa, especialmente diante das discussões sobre o split payment, mecanismo que prevê a separação automática do valor do tributo no momento do pagamento do produto ou serviço. Nesse modelo, apenas o valor líquido da operação fica disponível para o fornecedor. Embora sua implementação inicial esteja prevista para 2027 de forma facultativa e restrita às operações B2B, o mecanismo já demanda atenção das empresas pelos potenciais impactos sobre o fluxo de caixa, a conciliação financeira e os processos operacionais.  

“O dinheiro que hoje fica na conta da empresa até o vencimento do tributo vai transitar de forma diferente. Por isso, os negócios precisam repensar sua estrutura de capital de giro, porque parte do que hoje é considerado geração de caixa operacional pode deixar de circular pelas contas bancárias”, afirma o Quaresma. 

Além das áreas fiscal e financeira, a reforma também tende a provocar revisões em contratos, sistemas tecnológicos, cadeia de fornecedores e até estratégias de precificação. 

Passo 2 - Começar um diagnóstico interno antes da transição avançar 

Mesmo sem todas as regulamentações concluídas, já existem movimentos que as companhias podem iniciar para reduzir riscos futuros. Um deles é mapear a carga tributária atual de produtos e serviços, levantamento que ajuda a construir uma “linha de base” para entender como a reforma pode afetar margens, custos e preços. 

A reforma também deve alterar a relação das empresas com fornecedores e a própria estrutura de compras. Isso acontece porque o novo sistema amplia a não cumulatividade, modelo em que os tributos pagos nas etapas anteriores da cadeia produtiva geram créditos tributários ao longo das operações. 

Nesse cenário, contratos, fornecedores e tipos de aquisição passam a ter impacto ainda maior sobre os custos futuros do setor produtivo, já que nem todos os fornecedores devem gerar créditos da mesma forma no novo sistema. Por isso, identificar como essas operações podem mudar tende a ganhar peso no planejamento dos negócios durante a transição. 

Passo 3 - Revisar preços, margens e estrutura de custos 

A formação de preços deve entrar no radar das companhias durante a transição. Isso porque a reforma tributária cria um modelo de IVA (Imposto sobre Valor Agregado), estrutura que vai unificar tributos sobre o consumo por meio da CBS e do IBS.  

Apesar da proposta de maior neutralidade tributária, os impactos tendem a variar conforme o perfil de cada negócio.  

Passo 4 - Evitar o erro de deixar tudo nas mãos do contador 

Na avaliação de Lucas Quaresma, um dos principais erros neste momento é tratar a reforma como um assunto exclusivamente técnico. “Ela afeta precificação, negociação com fornecedores e estrutura de capital. O gestor precisa entender o impacto no futuro da empresa para tomar decisões no presente”, pontua. 

Também existe o risco de enxergar a reforma como um tema distante, concentrado apenas em 2033. Embora a implementação completa aconteça daqui a alguns anos, a fase operacional começa antes. Em 2026, o setor produtivo já passa a conviver com novos layouts fiscais, validações, projetos-piloto e adaptações de sistemas. 

O próprio governo tem sinalizado que esse período será educativo e gradual, com flexibilização inicial em parte das validações para evitar travamentos operacionais. Ainda assim, as obrigações continuam existindo, e inconsistências poderão gerar notificações ou pedidos de regularização posteriormente. Em outras palavras: o período de testes não significa ausência de responsabilidade. 

O que muda além da tributação  

A reforma tributária também pode abrir espaço para revisões estratégicas dentro das empresas. O período de transição tende a estimular análises sobre processos internos, estrutura societária, formação de preços e até modelos de negócio, especialmente em setores que podem sofrer impactos mais relevantes ao longo da implementação das novas regras. 

Por conta disso, a preparação deixa de envolver apenas adequações tributárias e passa a incluir planejamento, acompanhamento constante das regulamentações e capacidade de adaptação gradual, reduzindo riscos e evitando decisões precipitadas em um cenário ainda em construção. 

Especialistas também apontam que, no longo prazo, a reforma pode ampliar previsibilidade, transparência e automação de processos tributários, com efeitos diferentes entre os setores.  

Dicas para empresas começarem a se organizar 

  • Mapear a carga tributária atual de produtos e serviços;
  • Revisar contratos de médio e longo prazo;
  • Avaliar impactos no fluxo de caixa e capital de giro;
  • Revisar fornecedores e possibilidades de geração de créditos;
  • Atualizar sistemas fiscais e financeiros gradualmente;
  • Acompanhar a regulamentação de perto;
  • Envolver gestão, financeiro, jurídico e tecnologia nas discussões;
  • Buscar orientação especializada antes de mudanças estruturais importantes.
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