O movimento começou antes mesmo da abertura dos portões da Cidade do Rock. Entre grupos de amigos conferindo ingressos no celular, pessoas chegando de transporte público, mochilas carregadas com o que acompanharia as horas seguintes e conversas sobre os shows mais esperados, uma nova edição do Rock in Rio começou a ganhar forma no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro.
Em 2026, o festival ocupa a cidade nos dias 4, 5, 6, 7, 11, 12 e 13 de setembro e reúne grandes nomes da música, atrações espalhadas pelo espaço e milhares de pessoas dispostas a passar boa parte do dia por ali. Para chegar até aquele momento, porém, a preparação de muitos fãs havia começado bem antes da escolha do look ou da montagem da programação de shows.
Ingresso, transporte, alimentação, hospedagem para quem veio de fora e os gastos dentro do festival entraram em uma conta que, para muitos, começou a ser organizada meses ou até anos antes. Entre quem guardou pequenas quantias ao longo do tempo, quem parcelou para distribuir melhor o custo e quem decidiu antecipadamente onde preferia economizar, o Rock in Rio revela diferentes maneiras de planejar uma experiência que ocupa um lugar importante no orçamento.
O festival começou antes da compra do ingresso
Para Matheus Santana, ir ao Rock in Rio já faz parte do calendário. Frequentador do festival e criador de conteúdo sobre shows e eventos, ele costuma se organizar levando em conta uma característica que ajuda no planejamento: o intervalo de dois anos entre as edições.
Para se preparar para 2026, em vez de esperar a abertura das vendas para decidir como pagaria os ingressos, Matheus criou uma reserva específica para o festival. Sempre que recebia algum valor, separava em cofrinhos virtuais uma pequena quantia, geralmente entre R$ 20 e R$ 30.
“Como são dois anos, vou colocando R$ 20 ou R$ 30 todo mês ou toda vez que recebo. No final dá um dinheiro legal. Quando chega a época de comprar ingresso, gastar com roupa ou nos dias do festival, já tenho um valor que separei e planejei para esse momento”, conta.
Foi dessa reserva que saiu o dinheiro para o ingresso Rock in Rio Card. Na véspera da venda, ele resgatou o valor exato e, quando chegou a vez de comprar, fez o pagamento por Pix.
Mesmo sabendo que, como criador de conteúdo, as parcerias poderiam aliviar parte dos custos, ele preferiu não depender delas para garantir a presença no festival. “A gente não pode contar muito com as marcas, principalmente eu, que sou um criador que está crescendo agora. Então eu comprei mesmo só para ter certeza de que conseguiria ir.”
A escolha mostrou um ponto importante do planejamento para experiências desse tipo. No caso de Matheus, guardar pouco a pouco ajudou a transformar um gasto concentrado em uma despesa preparada com antecedência.
Parcelar também fez parte do planejamento
Se Matheus preferiu guardar dinheiro para pagar o ingresso de uma vez, Julia Branda, que trabalha na área comercial de uma empresa de tecnologia, seguiu outro caminho. Frequentadora do Rock in Rio desde 2011, ela parcelou os ingressos e organizou o valor de acordo com o impacto que as parcelas teriam nos meses seguintes.
“Sou super controlada financeiramente. Com a venda extraordinária, calculei em quantas parcelas funcionaria exatamente para que isso não pesasse tanto no meu orçamento para os próximos meses”, conta.
Cliente Itaú, Julia também levou em consideração as condições de pagamento disponíveis para a compra. “Como sou cliente Itaú, as parcelinhas extras ajudam muito”, diz. Segundo ela, essa possibilidade contribuiu para que, na venda extraordinária, decidisse comprar também um ingresso para o dia 13, além do dia 6.
Para Julia, o planejamento funcionou menos como uma barreira para o gasto e mais como uma forma de antecipá-lo. Saber quanto pretendia desembolsar e como as parcelas se encaixariam no orçamento ajudou a manter a experiência dentro de uma faixa que considera confortável, sem transformar cada decisão em uma conta nova.
O ingresso foi só uma parte da experiência
Para quem precisou viajar para chegar ao Rock in Rio, como Clara Shiratori, médica-veterinária que mora em Brasília, outros gastos entraram no planejamento. Também frequentadora desde 2011, ela tenta participar de pelo menos um dia de cada edição e, em 2026, se organizou considerando despesas que começaram antes mesmo de desembarcar no Rio de Janeiro.
“Como é um evento planejado e sei que ocorre a cada dois anos, começo a separar dinheiro alguns meses antes de quando a venda do Rock in Rio Card costuma ser. Agora, morando em outra cidade, tento comprar as passagens assim que defino a data que vou para o festival para conseguir os melhores preços”, conta.
Além de buscar promoções de passagem, Clara costuma dividir a hospedagem com outras pessoas. No entanto, houve um gasto do qual preferiu não abrir mão: o transporte Primeira Classe para chegar e sair do festival, opção que considera mais confortável. Na edição de 2026, o aumento do preço a surpreendeu, e a solução foi distribuir o valor ao longo dos meses.
“Acho que é a forma mais tranquila e segura de chegar e sair do festival. O aumento do valor me pegou de surpresa, mas, como já estava com tudo comprado, acabei parcelando para garantir a ida e a volta com mais tranquilidade.”
A escolha ajudou a mostrar que organizar os gastos para uma experiência não significava necessariamente buscar o menor preço em tudo. Clara economizou em algumas frentes para manter outras que considerava importantes. Foi uma lógica que também apareceu nas escolhas feitas durante o festival: levar comida e água e reduzir outros consumos para abrir espaço no orçamento para aquilo que considerava prioridade.
Onde vale gastar e onde dá para economizar
Depois de garantir ingresso, transporte e, em alguns casos, hospedagem, ainda restava uma parte importante da conta: os gastos ao longo do dia. Foi aí que entraram escolhas que podiam fazer diferença no total, como alimentação, bebidas, transporte e despesas compartilhadas com amigos.
Matheus Santana pesquisou os preços antes do festival para decidir o que realmente valeria a pena consumir por lá. Como já havia feito em outras edições, levou sanduíches, biscoitos e outros alimentos de casa e deixou para comprar apenas aquilo que considerou valer a pena. “Só compra se você achar que faz sentido para você no momento”, resume em uma dica.
Ele também dividiu algumas despesas com o grupo. O transporte de aplicativo até parte do trajeto, por exemplo, foi rachado entre os amigos antes de seguirem de transporte público. O mesmo aconteceu com o locker, compartilhado por mais de uma pessoa para guardar os pertences.
Clara seguiu uma lógica parecida. Como já previa gastos maiores com viagem e transporte, procurou reduzir o que podia durante o evento. A estratégia incluiu levar comida e água e pesquisar com antecedência os preços da praça de alimentação. Nesta edição, ela e o grupo decidiram abrir mão da cerveja no festival depois de consultar os valores estimados.
“Eu tento economizar ao máximo no que é possível”, diz. “Quem também quer curtir a praça de alimentação, sugiro pesquisar os valores antes para se organizar e não ser pego de surpresa.”
Julia, por sua vez, preferiu trabalhar com uma referência de quanto pretendia gastar por dia, calculada a partir do que já havia consumido em outras edições. “Gosto de pensar em torno de R$ 120 a R$ 150 por dia. Se acabar passando, acontece. Também não vou me limitar por conta desse fator”, afirma.
Outra forma que Julia encontrou de administrar os gastos ao longo do festival foi dividir alguns consumos com os amigos. “Compramos um lanche e dividimos, e no próximo lanche outro amigo pagou”, conta. Assim, o planejamento continuou mesmo depois da entrada na Cidade do Rock, com escolhas ajustadas conforme o dia avançava.
O que fez o gasto valer a pena
No fim, o planejamento também passou por uma pergunta menos objetiva: o que fez a experiência valer o dinheiro investido? Para os três entrevistados, a resposta foi além de um único show.
Julia Branda costuma ir a muitos shows e vê no Rock in Rio a possibilidade de reunir várias atrações em uma mesma noite. “Sempre vou com meus amigos, família, e para mim o valor é esse. Além do valor objetivo mesmo, acho o custo-benefício do festival muito bom. Poder pagar o ingresso que costumo pagar em um show e ver vários artistas em uma mesma noite é maravilhoso”, afirma.
Para Clara Shiratori, que tenta participar de pelo menos um dia de cada edição desde 2011, o valor também esteve no caráter coletivo do festival. “É uma experiência que faço há muitos anos e sempre me surpreende. Gosto que muitas vezes tem artistas que normalmente não vêm para shows solo, além de ser uma oportunidade de curtir shows de outros artistas que talvez eu não veria se fosse algo isolado”, conta.
Ela destacou ainda a convivência com diferentes públicos e tudo o que aconteceu para além dos palcos. “É uma experiência coletiva muito legal de viver, com uma diversidade imensa de pessoas. Gente de outros países, outras cidades, outros grupos e estilos. Isso é legal demais. Fora as ativações, que, particularmente, eu adoro participar.”
Antes do festival, Clara também dizia que gostaria de voltar à roda-gigante do Itaú, atração que havia conseguido aproveitar uma única vez, em 2015. “Só consegui ir nela uma vez e foi legal demais. Adoraria ir de novo”, contou na ocasião.
Matheus também enxergou o festival como algo maior do que a programação musical. Criador de conteúdo sobre shows e eventos, ele considera o Rock in Rio parte do próprio trabalho, mas a relação não é apenas profissional. “Para mim acaba sendo muito mais que um show. Tem as ativações, tem os brinquedos. Para mim, realmente, tudo isso é muito fantástico. Eu sempre fui fã do Rock in Rio.”
O que essas escolhas mostraram é que planejamento financeiro não serve apenas para limitar gastos. Ele também pode ser o caminho para tornar possíveis experiências que têm significado. Quando o dinheiro é organizado com antecedência e usado de acordo com prioridades reais, deixa de ser apenas uma conta a pagar e passa a ser parte daquilo que se escolhe viver.

