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Economizar também pode virar excesso?

Não existe um valor que determine quanto é economizar demais. A diferença pode estar no que se abre mão para continuar acumulando. 

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Imagem gerada por IA

Guardar dinheiro costuma ser uma das recomendações mais repetidas quando o assunto é organização financeira. Ter uma reserva, pensar no futuro e evitar comprometer o orçamento são cuidados importantes. Mas essa relação pode ganhar outros contornos quando a pessoa já conquistou uma situação mais confortável, aumentou a renda ou acumulou patrimônio e, ainda assim, continua sentindo que não pode usufruir do que tem. 

Às vezes, a vida financeira mudou, mas a sensação de segurança não acompanhou essa mudança. Quem passou por períodos de aperto, por exemplo, pode continuar tomando decisões como se perder o que conquistou estivesse sempre no horizonte. Um gasto que cabe no orçamento provoca culpa, uma melhoria possível é adiada e experiências que poderiam fazer sentido naquele momento continuam sendo empurradas para depois. 

“Para algumas pessoas, o hábito fica tão forte, tão arraigado, que meio que independe da realidade”, explica Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia social pela PUC-SP e especialista em psicologia econômica há mais de 30 anos. 

Isso não quer dizer que economizar muito seja um problema, nem que exista um valor de patrimônio ou uma parcela da renda que determine quando alguém deveria gastar mais. Para Vera Rita, duas pessoas com condições financeiras parecidas podem se relacionar de formas muito diferentes com o dinheiro. O que ajuda a distinguir organização de privação é observar o que sustenta essas escolhas e o que começa a ser deixado de lado em nome de uma segurança que talvez nunca pareça suficiente. 

O desafio, então, não está em escolher entre guardar para o futuro e aproveitar o presente. Está em perceber quando o cuidado com o dinheiro continua ampliando possibilidades e quando o medo de usá-lo começa a limitar necessidades, projetos e qualidade de vida. 

Ter dinheiro não significa sentir que ele pode ser usado 

O saldo da conta, o patrimônio ou a reserva financeira não são os únicos fatores que entram na decisão de gastar. A forma como cada pessoa aprendeu a lidar com dinheiro também pesa. Por isso, alguém pode estar em uma situação financeira confortável e, ainda assim, sentir que qualquer gasto representa uma ameaça à segurança construída. 

Vera Rita explica essa diferença a partir do conceito de realidade subjetiva. “A gente tem uma realidade dentro de nós que pode ser diferente da realidade concreta, externa, que é compartilhada pelas pessoas. É uma realidade subjetiva.” É essa percepção interna que pode fazer com que a pessoa continue se sentindo insegura mesmo quando, olhando apenas para os números, haveria espaço para usufruir de parte do que foi acumulado. 

“Para a pessoa, pode não fazer sentido usufruir daquele dinheiro, por diferentes razões”, afirma. Em alguns casos, essa dificuldade aparece acompanhada de culpa ou de um medo persistente de que o dinheiro acabe. “Tem gente que se sente meio culpada de ter. Não é a maioria, mas tem gente que tem tanta fobia, tanto medo de ficar na miséria, que não consegue relaxar”, completa. 

Isso ajuda a entender por que nem sempre basta olhar para o orçamento e concluir que determinado gasto “cabe”. A conta pode fechar, mas a sensação de segurança pode não acompanhar os números. E é justamente nessa distância entre o que a situação financeira permite e o que a pessoa sente que pode fazer com o dinheiro que a economia pode começar a deixar de ser apenas uma escolha de organização. 

Por que gastar consigo pode ser tão difícil 

Essa distância entre ter dinheiro e se sentir confortável para usá-lo pode aparecer de diferentes formas. Para algumas pessoas, não se trata apenas de querer poupar mais, mas de uma dificuldade em se permitir usar o dinheiro até em pequenas coisas do dia a dia. “Tem gente que não consegue inserir na rotina esses pequenos mimos para si mesma ou para quem está ao redor”, diz Vera Rita. 

Um estudo publicado em 2024 na revista Psychology & Marketing ajuda a entender esse desconforto. Os pesquisadores Justin Pomerance e Nicholas Reinholtz analisaram a chamada “dor de pagar”, uma reação emocional negativa que pode funcionar como um freio na hora de usar o dinheiro.  

Segundo o estudo, esse incômodo tende a aumentar quando a compra é percebida como uma redução da “folga financeira”, ou seja, daquela margem de dinheiro que a pessoa sente que tem disponível. E essa percepção não depende apenas de quanto dinheiro existe de fato, por exemplo, duas situações economicamente equivalentes podem provocar sensações diferentes de perda de segurança. 

Essa relação pode levar, inclusive, a escolhas que, vistas apenas pela lógica financeira, parecem contraditórias. Vera Rita cita o exemplo de quem evita gastar com alimentação dentro de casa, mas acaba desembolsando mais por outro caminho. “Tem gente que mantém a própria geladeira vazia, daquelas que fazem eco, porque não consegue gastar consigo mesma nesse sentido. Mas acaba almoçando fora, num quilo da vida, por exemplo, não em restaurantes caros, mas está sempre comendo fora, o que acaba sendo uma despesa maior.” 

O ponto não é avaliar cada decisão isoladamente nem estabelecer de fora onde alguém deveria gastar. Como explica Vera Rita, esses comportamentos podem obedecer a uma lógica interna própria. “São coisas que não fazem necessariamente sentido para as outras pessoas, porque atendem a impulsos internos. Para a própria pessoa, porém, faz muito sentido.” 

Entender de onde vem essa lógica é importante antes de concluir que qualquer preocupação com dinheiro representa um excesso. 

O medo do futuro também tem uma razão concreta 

Nem toda preocupação em guardar dinheiro é exagerada. Parte dela nasce de riscos concretos, especialmente quando entram na conta o envelhecimento, a possibilidade de perda de renda e a necessidade de cuidados futuros. 

“Muitas vezes, existe o medo de perder o que foi conquistado e também o medo da velhice. Nesse sentido, eu até acho saudável, porque a velhice é muito cara e muitas vezes as pessoas não se dão conta de como isso pode ser complicado”, afirma Vera Rita. 

Com o passar dos anos, também pode se tornar mais difícil manter o mesmo nível de renda ou continuar trabalhando. “A pessoa pode não conseguir trabalhar, se recolocar ou não ter vigor e saúde suficientes”, diz ela. “É um temor meio generalizado entre as pessoas que têm alguma consciência disso”, afirma a especialista. Por isso, preservar uma reserva e se preocupar com o futuro não são, por si só, sinais de uma relação problemática com o dinheiro.  

Experiências anteriores também podem reforçar essa necessidade de proteção. Um estudo publicado em 2024 no American Economic Journal: Macroeconomics analisou os efeitos de períodos de desemprego vividos ao longo da vida e encontrou uma espécie de “cicatriz” no comportamento financeiro. 

Pessoas mais expostas a essas experiências tendiam a ser mais pessimistas em relação à própria situação financeira, consumir menos e acumular mais patrimônio, mesmo quando fatores como emprego e renda atuais eram considerados. 

Isso não significa que atravessar dificuldades financeiras leve necessariamente alguém a economizar demais. Mas ajuda a explicar por que o receio de voltar a uma situação de instabilidade pode permanecer mesmo depois que a realidade melhora. “Nas pessoas mais exageradas, esse medo pode passar um pouco do limite, principalmente quando a pessoa não tinha dinheiro antes ou passou por mais dificuldades”, diz Vera Rita. 

A questão, portanto, não é eliminar o receio do futuro. É perceber quando uma preocupação legítima continua ajudando a proteger a vida financeira e quando começa a impedir que a segurança já construída seja reconhecida. 

O custo de uma economia excessivamente restritiva 

Guardar dinheiro, controlar gastos e se preparar para o futuro continuam sendo atitudes importantes. O problema não está necessariamente em economizar muito, mas no espaço que essa preocupação passa a ocupar nas decisões. 

“Ser econômico ou organizado na vida financeira é ótimo. O problema começa quando essa relação se torna excessivamente restritiva, porque quem mais acaba prejudicado é a própria pessoa. No fim, é ela quem perde”, afirma Vera Rita. E o que se perde nem sempre aparece no extrato. “Perde oportunidades, qualidade de vida, um certo prazer em viver”, pontua a especialista. 

Existe uma diferença entre abrir mão de um gasto porque ele não cabe no orçamento, não faz sentido naquele momento ou porque há uma prioridade maior e deixar de fazer escolhas que poderiam trazer conforto, bem-estar ou experiências importantes mesmo quando há condições financeiras para isso. 

Essa relação mais restritiva também pode aparecer antes mesmo da decisão de gastar: algumas possibilidades deixam de ser consideradas. 

“As pessoas podem até nem enxergar como a própria qualidade de vida poderia melhorar”, diz Vera Rita. Ela cita como exemplo atividades e serviços que poderiam trazer mais bem-estar. “Você poderia viajar de um jeito mais confortável, ter acesso a exercícios físicos de mais qualidade, com personal ou em uma academia especializada, mas a pessoa não enxerga isso.” 

A ideia não é aumentar o padrão de consumo nem transformar conforto em obrigação. É conseguir distinguir entre concluir que determinada escolha não é importante e descartá-la automaticamente apenas porque envolve usar parte do dinheiro acumulado. 

Mesmo quando existem sinais objetivos de estabilidade, a sensação de que ainda falta alguma coisa pode permanecer. “Para quem olha de fora, pode parecer que a pessoa já tem uma situação financeira bastante confortável, uma boa aposentadoria, dinheiro guardado, imóvel próprio, às vezes, mais de um. Mas a percepção dela pode ser outra. Ela pode sentir que ainda não é suficiente, que deveria ter o dobro de imóveis ou o dobro de dinheiro acumulado”, exemplifica Vera Rita. 

Nesse cenário, a linha do que seria suficiente continua se afastando. Projetos, conforto e experiências podem ser adiados indefinidamente em nome de uma segurança que nunca parece completa. 

Mais do que observar apenas quanto dinheiro foi acumulado, portanto, vale olhar para o efeito dessas decisões. O patrimônio está ampliando possibilidades ou o medo de usá-lo começou a reduzir as escolhas disponíveis no presente? 

Economizar restritivamente também pode pesar nas relações 

Uma relação muito restritiva com o dinheiro nem sempre fica limitada às escolhas individuais. Quando decisões financeiras fazem parte da rotina de um casal ou de uma família, diferenças na forma de gastar e economizar podem virar motivo de atrito. “Isso gera muito conflito, principalmente quando uma pessoa do casal é assim e a outra não, ou quando um dos pais é assim e os filhos não são. Tem muito potencial para conflito porque ninguém mais entende aquele comportamento”, afirma Vera Rita. 

Uma pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box em maio de 2026, mostra como o dinheiro pode pesar nas relações. Entre as 1.257 pessoas ouvidas em todo o Brasil, 45% apontaram as questões financeiras como uma das principais causas de conflitos amorosos. Além disso, 29% disseram já ter deixado de assumir compromissos importantes, como morar junto ou financiar um bem, por incompatibilidade financeira com o parceiro. 

Isso ajuda a entender por que duas pessoas podem dividir uma casa, planos e até uma renda, mas enxergar de formas muito diferentes o que significa segurança financeira. Para alguém mais preocupado em preservar o que acumulou, gastar pode representar risco. Para outra pessoa, reservar parte do dinheiro para conforto, lazer ou outros projetos pode fazer parte de uma vida financeira organizada. 

Essas diferenças nem sempre aparecem no começo da relação. “Como muitas vezes os casais se unem antes de ter conversas importantes sobre finanças, a surpresa vem depois. Ou o choque vem depois”, diz Vera Rita. E a expectativa de que o comportamento da outra pessoa mude ao longo do tempo também pode não se confirmar: “O parceiro ou a parceira acha que vai mudar o comportamento do cônjuge. E não necessariamente.” 

Por isso, quando o jeito de lidar com dinheiro afeta decisões compartilhadas, a conversa vai além de quanto guardar ou gastar. Passa também por tornar mais claras as prioridades, os receios e o que cada pessoa entende como segurança financeira.  

Afinal, se para alguém determinado patrimônio já traz tranquilidade e, para outra pessoa, a mesma situação ainda parece insuficiente, fica difícil estabelecer uma medida única do que seria “ter o bastante”. 

Existe um valor que seja suficiente? 

Essa diferença de percepção leva a uma questão que vale também para as decisões individuais: existe um valor capaz de indicar que alguém já guardou o suficiente? A resposta não é simples, porque essa conta muda conforme o momento de vida, as responsabilidades e os objetivos de cada pessoa. “A reserva de emergência depende do estilo de vida, da fase da vida, da idade e de ter ou não familiares”, diz Vera Rita. 

Além disso, o papel do dinheiro reservado também pode mudar ao longo do tempo. Uma quantia inicialmente separada para emergências, por exemplo, pode continuar acumulada depois de atingir a meta e passar a integrar um planejamento de longo prazo, como a aposentadoria. 

Por isso, organização financeira não tem exatamente uma linha de chegada. “De certa forma, é uma meta que nunca termina. Não a reserva de emergência, mas a organização da vida financeira. Você sempre vai precisar”, explica a especialista. 

Isso é diferente de concluir que é necessário economizar o máximo possível para sempre. Planejamento financeiro e sensação de segurança não são a mesma coisa.  

Mais útil do que buscar um número capaz de encerrar de uma vez essa discussão é entender qual função cada parcela do patrimônio está cumprindo. Quanto está reservado para emergências? Quanto tem como objetivo a aposentadoria ou outro projeto de longo prazo? Existem metas que já foram atingidas? E o planejamento ainda deixa espaço para necessidades e projetos do presente? 

São essas respostas que ajudam a transformar uma ideia abstrata de segurança em objetivos mais concretos. 

Guardar para o futuro sem tirar o presente da conta 

No fim, encontrar equilíbrio não significa escolher entre economizar ou aproveitar o dinheiro. As duas coisas podem fazer parte da mesma organização financeira. O desafio está em entender para que o dinheiro está sendo guardado, quais compromissos precisam ser protegidos e quanto pode ser destinado a necessidades e projetos do presente sem colocar esses planos em risco. 

Transformar objetivos mais abstratos em valores pode ajudar nesse processo. No Superapp Itaú, por exemplo, os Cofrinhos permitem separar o dinheiro de acordo com diferentes objetivos, definir metas e acompanhar quanto já foi guardado. Isso pode ajudar a diferenciar o que está reservado para uma emergência, uma viagem ou outro projeto do dinheiro que simplesmente continua sendo acumulado sem uma finalidade definida. 

Outra ferramenta é o Controle de Gastos, que reúne automaticamente despesas da conta e do cartão por categorias e permite definir quanto se pretende gastar por mês em cada uma delas. Ter essa visão não serve apenas para descobrir onde cortar, mas também pode dar mais clareza sobre quanto já está comprometido, quais são as prioridades e onde existe espaço no orçamento para outras escolhas. 

Até porque a segurança financeira é construída ao longo do tempo. Imprevistos e mudanças de planos fazem parte da vida, mas o planejamento ajuda a enfrentá-los com mais tranquilidade e a manter o controle das decisões. Economizar continua sendo uma forma de proteger o futuro e o dinheiro também pode cumprir seu papel quando permite viver, com consciência, o presente. 

 

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